Continuous, entire, universal, long lasting.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Por que tanta indignação?

Ante o ocorrido recentemente na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, em que professores da rede estadual foram agredidos por policiais do Batalhão de Choque - presentes, olhem só!, para garantir a paz e a ordem (e, por que não dizer?, manter o status quo) -, em uma clara releitura do período ditatorial (ou, como pretendem alguns, da ditabranda brasileira), concluí simplesmente que o Exmo. Sr. Governador do Estado deu aos manifestantes apenas o que eles queriam. Afinal...
Quem conseguiria passar a vida em uma sala de aula, em condições insalubres, ensinando crianças malcriadas (e que chegam a proferir ameaças - algumas vezes cumpridas), armadas, desinteressadas, vítimas da sociedade e de sua própria família, que refletem seu desprazer e suas desesperanças no ambiente escolar? Os professores o fazem.
Quem conseguiria manter uma rotina estafante, bem superior às quarenta horas semanais da maioria dos trabalhadores brasileiros, trabalhando em dois, até três ambientes diferentes, para, aí sim, poder adquirir o seu próprio sustento ao final do mês - incompatível com a carga horária exercida? Os professores o fazem.
Quem conseguria ver o seu trabalho, essencial para o desenvolvimento da sociedade, ferramenta indutora do futuro da Nação (e do mundo), cada vez mais desprezado e desestimulado? Os professores o fazem.
Quem conseguiria aguentar calado a sociedade o culpando pela falha de outrem? Os professores o fazem - "a culpa desse menino ser assim é da escola, que não faz nada".
Ora, é fácil concluir, portanto, que os professores são masoquistas - e o Sr. Governador, tão atento aos anseios da sociedade que o elegeu como seu representante, deu aquilo de que eles tanto devem gostar: sofrimento.
É, Governador Cid, uma hora dessas, seus mestres em Sobral devem estar orgulhosos do seu antigo, mas eterno, pupilo.

Um mal súbito

Era uma fria tarde de outono – apesar de aquele vilarejo, nos cafundós, onde o Judas perdeu as meias, não fazer a menor ideia do que significavam duas dessas palavras, pois havia adotado um calendário diferente sobre as estações do ano, pelo qual reconhecia claramente as seguintes: quente, muito quente, seco e mormaço. No entanto, naquele dia, fazia frio e era outono (talvez para enquadrar a história nesse tipo de texto, porque coincidentemente sempre é assim).

Apesar de ser uma quarta-feira, Lurdinha vestiu a sua roupa dominical e saiu de casa. Não sem antes haver passado longas duas horas cumprindo o típico ritual feminino, que independe se na cidade ou no campo; se praticado por jovens, senhoras ou idosas; se dispendioso ou não; sempre acontece.

Enquanto se arrumava, pensava na efemeridade da vida. Quer dizer, pensava que a vida é um bicho estranho, mode que do jeito que vem, vai – pois, com certeza, efemeridade lhe pareceria mais como um palavrão. E pode acontecer com qualquer pessoa a qualquer momento! Imagina só, o Dudu!

Tá certo, ela não o conhecia bem; mas ele era vereador! Filho da Dona Carola, vizinho da Sebastiana, havia ajudado a construir a escolinha que os filhos do Dão, seu vizinho, haviam estudado. E, de repente, trabalhando, aconteceu aquilo – como era o nome? Enfarte. Infarte. Enfarto. É, era isso. Enfarto. Fulminante. Um negócio no coração - parou de bater de uma vez. Não teve jeito, ninguém conseguiu reviver o moço.

Tinha saído até no Jornal Nacional. Um feito inédito: era a primeira vez que Costela de Cobra aparecia para o resto do Brasil. Tudo por causa de Dudu e seu infarte fulminante.

Quando se despediu do Rambo, o vira-lata abanou seu rabinho e a seguiu. Como sempre, não a abandonaria. Suspeita-se que, por falta de outros afazeres, Rambo preferia acompanhar a sua dona. Comentários maledicentes asseveravam o contrário – ela é que não conseguia fazer nada sem seu Sancho Pança canino.

O vilarejo estava imerso em um caos silencioso. As crianças que estudavam faltaram à escola, as lavadeiras mantiveram os tanques vazios (enquanto se portavam como Lurdinhas), as fofoqueiras de plantão (as há tanto no meio citadino como no rural) postavam-se – e prostravam-se – às calçadas. Apenas os cabras da peste, com dez bocas para sustentar, continuavam preocupados com o roçado e o dicumê. Afinal, “besteira é essa de sair na televisão só por causa do dotô?” Oxe, e num é que todo mundo vai morrer um dia?

A verdade é que, quando o séquito passou, todo mundo parou: preocupados e despreocupados; crianças, jovens e velhos; homens e mulheres. Mas a parada foi momentânea, diferente da que vitimara Dudu: todos se puseram a acompanhar o cortejo, inclusive Lurdinha – que, não se sabe o porquê, estava taciturna, sorumbática. Macambúzia mesmo.

Fez questão de fazer a sua primeira e última homenagem ao defunto vereador, esperando três horinhas, junto com Rambo, na fila em frente à igreja. Calada, passou pelo caixão, cruzou seus olhos com os dele e, ao levantar a vista, não deu outra: apaixonou-se.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Em defesa do Fortaleza Esporte Clube


Sei que esse blog é para publicar apenas textos meus, mas gostei tanto desse (principalmente do começo), escrito por um ex-professor da faculdade, pai de uma amiga minha, que me senti no dever de compartilhá-lo.




Reflitam. Principalmente sobre a parte da hipocrisia. :)




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EM DEFESA DO FORTALEZA ESPORTE CLUBE:


ALGUMAS PONDERAÇÕES


Considerando o momento esportivo atual, em que se discute, com muita veemência e pouca reflexão, os episódios de domingo (18/09);


Considerando haver um evidente unilateralismo nas versões divulgadas, nacional e regionalmente, sobre tais episódios;


Considerando, enfim, as repercussões de todo o ocorrido,


CABE PONDERAR:


I) A TERRÍVEL HIPOCRISIA DO DEBATE EM RELAÇÃO AOS ASPECTOS MORAIS DOS EPISÓDIOS:


a) De fato, não se vai aqui sustentar que a Moral seja um elemento irrelevante. Muito ao contrário! Mas, moralidade só existe, se não se fizer concessões levianas. Assim, se eu prego moralidade para os outros, mas não a pratico, ou se fecho os olhos quando a conduta amoral me interessa, ou me beneficia, eu não passo de um hipócrita! A propósito: hipocrisia, é palavra de origem grega que, de acordo com os dicionários, significa vício de caráter manifestado por aquele que aparenta ser o que não é ou que diz sentir o que não sente... Em termos mais populares: fingimento! Esse é um dado a se considerar;


b) Quando, pois, se afirma aqui que o debate no plano moral é inadequado para a compreensão desse episódio, é que é necessário separar o joio do trigo: sim, é até possível que algumas das opiniões manifestadas sejam ditadas por preocupações morais legítimas com o esporte e com a justiça das competições, mas, não se pode esquecer que a maioria das opiniões externadas é absolutamente suspeita (torcedores de times locais adversários, torcedores do clube paraibano, “jornalistas” esportivos altamente comprometidos pela paixão por clubes rivais);


c) Não é jornalismo, mas sim “jornalismo” a opinião de repórteres que, durante a transmissão do jogo, evidenciaram aberta e descaradamente sua preferência por um resultado, como se ouve e vê no vídeo devidamente editado, aparentemente da TV Pajuçara, em que seus repórteres manifestam sua falta de isenção, torcendo pela eliminação do Fortaleza;


d) Isso fica mais evidente, ainda, quando se observa o silêncio desses “jornalistas” sobre a ilegalidade e o absurdo da anulação do gol legítimo do Guarani de Sobral (gol que teria abortado toda essa confusão) e, novamente, o silêncio sobre a possível existência de impedimento no gol do Campinense... Mas, há silêncios que falam, silêncios eloqüentes! E esse silêncio nos diz que há hipocrisia em todo aquele vídeo!


e) Como é também suprema hipocrisia (no plano local, em Fortaleza, Estado do Ceará) a gritaria por parte dos torcedores do time rival (alguns deles são tão irremediavelmente tolos, que chegam ao ponto de não pronunciarem o nome Fortaleza, optando por se referirem à “capital do Ceará” ). E falam em “vergonha”, prejulgando sem provas e esquecidos de seu passado sombrio. Basta recordar que, dos seus supostos títulos de campeão, nada menos que seis foram conquistados nos tribunais (pode-se até dizer que o grande craque da história desse time foi seu advogado...);


f) Aos hipócritas, as perguntas: por que não mencionam e não debatem os vídeos dos gols de Campina Grande? Por que não se referem ao fato de que o Campinense atrasou sua entrada no primeiro tempo? Por que se limitam a contestar as expulsões ocorridas no PV, mas não exibem o vídeo? Como esperar credibilidade? Esta última pergunta, aliás, bem poderia ser respondida por certos “jornalistas”....


g) Conclusão: se o que se pretende é um debate sério, a primeira coisa é abandonar o falso moralismo, moralismo de ocasião, moralismo seletivo, e partir para uma análise objetiva do jogo.


II) ANÁLISE OBJETIVA DAS CIRCUNSTÂNCIAS DOS DOIS JOGOS


a) Primeiramente, uma lembrança: futebol não é puro espetáculo de arte (embora a arte seja um de seus mais belos aspectos)... Futebol é competição e, também, meio de vida profissional! As duas partidas do domingo, em Fortaleza e Campina Grande, envolviam paixões e interesses, envolviam clubes que ou podiam alcançar importantes conquistas (CRB e Guarany) ou podiam sofrer terríveis reveses (Fortaleza e Campinense);


b) Esse é um dado essencial para se compreender o espírito dos atletas em campo, seus erros, suas atitudes equivocadas!


c) Ao longo da competição, muitas vezes a rivalidade ultrapassou o desejado e admissível: torcedores fazendo barulho à porta do hotel dos adversários, sites oficiais, ou não, acenando com provocações. Tudo isso entrou em campo no domingo passado, potencializado pelo drama final do rebaixamento e da classificação;


d) três expulsões aconteceram, nos dois jogos: em Campina Grande, um jogador do time de Sobral, e, em Fortaleza, dois atletas da equipe de Maceió. Pois bem: ninguém contesta a expulsão do atleta sobralense, até porque foi merecida, mas a cobertura da TV Pajuçara, cujo vídeo, devidamente editado, foi divulgado nacionalmente, grita a plenos pulmões que o CRB teria sido prejudicado, lançando suspeita sobre a arbitragem... Não mostram as cenas que justificaram as expulsões, porém! Não falam do prejuízo para o Guarany ante a anulação de seu gol legítimo! Apenas gritam e caluniam...


e) Não podem ser levados a sério.


f) Não podem querer que o tal vídeo seja um documento válido de prova.


g) Por que não ousam contestar a legitimidade dos gols do Fortaleza? Se não contestam, por que não reconhecem que a arbitragem não influiu no resultado? Por que não dizem que o Fortaleza teve uma penalidade máxima a seu favor não marcada? Por que não dizem que o goleiro do CRB defendeu uma outra penalidade?


h) Respostas: porque não é conveniente para a sua versão hipócrita dos fatos! Porque, assim, ficaria claro que, se houve erros de arbitragem, houve nas duas partidas; que, os jogadores do CRB, longe de entregarem o jogo, lutaram bravamente (embora estivessem, como todos os demais das quatro equipes, nervosos e preocupados com os resultados); porque o objetivo não é informar a verdade, mas obter algum tipo de proveito escuso...


i) O primeiro gol do Fortaleza foi normal, e não há edição de vídeo que falsifique esse fato. Feito o gol, os jogadores correram com a bola para o centro, felizes, mas conscientes de que não bastava: sabiam que, a qualquer momento, poderia haver uma notícia ruim vinda de Campina Grande: por exemplo, a anulação de um gol legal do Guarany ou a validação de um gol do Campinense (impedido ou duvidoso: não dá para ter certeza porque não houve interesse em exibir com detalhes as respectivas imagens...)


j) o segundo gol do Fortaleza foi normal, e não há edição de vídeo que falsifique esse fato. Novamente, os jogadores correm para o centro, com a urgência em recomeçar a partida, pois sabiam que o resultado ideal seria pelo menos quatro gols de diferença...


j) O terceiro gol do Fortaleza foi normal, e não há edição de vídeo que falsifique esse fato. Novamente a cena se repete: os jogadores (o valente Carlinhos Bala à frente) correm para o centro: recomeçar!!! Mas, agora, o momento já não era de felicidade: era de desespero, pois o gol do Campinense já era notícia (o que não era notícia – silêncio eloqüente! – era a anulação do gol legítimo do Guarany...)


l) E vem a polêmica: Carlinhos Bala faz um gesto significando o número 1 (um)... Com toda a sua “isenção”, gritam os hipócritas: pedia aos jogadores do adversário que facilitassem o jogo... Deixem, por favor, que nós façamos mais um gol...


m) Não destacam que o atleta tricolor, apressado em correr de novo para o centro do gramado, passa rapidamente pelos adversários e por seus próprios companheiros, em poucos segundos alcançando o grande círculo... É esse o comportamento de quem quer pedir algo tão importante? Não divulgam a versão do atleta, ou divulgam com ironia... Ignoram a versão crível, coerente, “redonda” como a bola e o círculo central em que Carlinhos Bala depositou a bola: “Passei correndo – diz o atleta – e sinalizando que só faltava um gol, porque durante toda a partida os jogadores do adversário (comportamento provocativo comum dentro do campo) nos esnobavam, dizendo que já estaríamos desclassificados e rebaixados...”


n) E não param os hipócritas e falsos jornalistas. Afirmam que um jogador do CRB ordena a seu goleiro: “Deixa fazer!” Leitura labial... É possível, embora o jogador esteja virando o rosto enquanto pronuncia as pretensas palavras... É possível, mas improvável. Por que deixar fazer? O que tem o Fortaleza a oferecer? Dinheiro? Quem ouviu qualquer insinuação dessas? Nem mesmo os tais hipócritas se atreveram a tanto (até porque, lamentavelmente, o Fortaleza não está bem financeiramente).


o) E vem, finalmente, o quarto gol! Impedido? Não! Feito com a mão? Não! Houve falta? Não! Gol normal, legal, suado, desesperado! Gol de garra, feito por atletas que, embora não sejam atletas de seleção brasileira, souberam honrar a camisa que trajavam e respeitar a torcida que os saudava!


III) Os aspectos jurídicos. Alguns lembretes (a alguns “juristas” de plantão, que esquecem que o ato de julgar requer isenção) e aos leigos (tocedores, jornalistas e “jornalistas”):


a) De acordo com o art. 5º, LV, da Constituição Federal, não se pode julgar sem ouvir a outra parte (audiatur et altera pars) e sem permitir a ampla defesa;


b) O ônus da prova (o encargo, a necessidade de provar) é distribuído, por lei, assim: ao autor, os fatos constitutivos do seu direito, e ao réu, os fatos extintivos, modificativos ou impeditivos do direito do autor (art. 333, do Código de Processo Civil). Logo, ao Campinense cabe esse peso: ou prova, muito bem provado, sem margem para dúvidas, que o Fortaleza pediu e o CRB entregou o resultado, ou então não pode esperar sucesso nessa sua empreitada leviana.


IV) IDENTIFICAÇÂO DO AUTOR:


Sem procuração do Fortaleza, como torcedor (admito minha suspeição, mas espero o debate sério).


Fortaleza, 20 de setembro de 2011.


Fernando Negreiros


Procurador da República


Professor Universitário (Processo Civil e Direito Eleitoral)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Códiba *

Olhou-se no espelho. Viu rugas, preocupações, cabelos brancos. E malas. Incontáveis. Imprescindíveis. Aos trinta anos, fazia a autoanálise irrefutável a essa idade. E, como todos, chegava à conclusão óbvia: a do envelhecimento.

Mas não estava triste com isso; ao contrário, chegava aos trinta satisfeito. Havia aproveitado a vida o máximo que pudera – e isso não significava uma "porra-louquice" desenfreada, porres inenarráveis, passos sem sentido... Em verdade, fizera o que lhe fora permitido. O que se permitira.

Aquela pergunta lhe perseguia cotidianamente já há algum tempo. "O que ele faria em meu lugar?", indagava-se rotineiramente, sempre que se via enredado em alguma situação cabulosa, sinuosa, misteriosa, gostosa...

E, ao se perguntar, via mais e mais bagagens se acumulando. Os chamados "princípios", que não entendia quando criança, mas que agora faziam cada vez mais sentido; as lições - de moral e de conduta, assim como de raciocínio, ensinadas dia após dia, em um recompensador exercício diário (que exigia, a bem da verdade, bastante paciência).

Ao ver o acúmulo de malas, percebia que algumas delas aumentavam com o tempo. "Faça o que eu digo, não faça o que eu faço" era o dito popular mais empregado (e mais adequado) à situação. Passou a ser bem mais compreensivo - e ainda mais amigo - ao perceber isso.

E, ao contrário do que dizem, isso não o fez perceber a humanidade do seu ídolo; ao revés, aumentou ainda mais a sua idolatria, pois, ao sabê-lo humano, quis atingir a sua perfeição idealizada e mentalizada (a despeito de ter pleno conhecimento de ele ser imperfeito) em outro ser humano, tão próximo de si.

Engraçado que, às vezes, a proximidade é relativa. Quando mais novo, era ainda mais latente; mas a sua ignorância juvenil o afastava da apreensão do que realmente importava. Agora, aos trinta, via que não era necessário um contato vis-à-vis cotidiano; bastavam algumas palavras, um sorriso, um olhar, que ele percebia. E entendia perfeitamente.

Aos trinta anos, continuava fazendo a pergunta: "O que ele faria em meu lugar?". Com um adendo: agora, já achava que sabia a resposta.

* Ao primeiro e melhor amigo.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A viagem

Sinceramente? Nunca tive muitos problemas em arrumar mala (tá certo que, até um tempo atrás, quem a fazia era minha irmã, mas desde que saí de casa - há quase 1 ano - não tenho mais essa facilidade). Ainda que não fosse feita por mim, eu sempre soube o que colocar dentro dela: camisas, calças, bermudas, meias, toalhas, artigos de higiene, cuecas, calçados (embora, certa vez, minha mãe tenha esquecido esses dois últimos itens!)... Jogava tudo em cima da cama e minha nobilíssima irmã dava um jeito de caber tudo na mala.
No entanto, sempre me enganchava quando se tratava de escolher um item. As músicas eram as que me acompanhavam rotineiramente, uma ou outra camisa de futebol, bloquinho de anotações etc.; tudo isso era muito fácil. Mas o problema mesmo vinha na escolha daquele que seria como um Toddynho pra mim ("o companheiro de aventuras"): o livro.
Abro aqui um I.S. ("inter-scriptum", já que é durante a escrita do texto, e não depois - etimologia do P.S., "post-scriptum"): livro é um objeto tido como antiquado hoje em dia, que insistem em dizer que sairá de moda (e de circulação) em breve. A despeito de, no final de 2010 (em pleno século XXI, onde já se viu isso!), ter sido uma livraria a maior responsável pelo crescimento em um mês da economia cearense! Pois bem, o livro é um objeto facilmente portável, utilizado para contar histórias, reais ou fictícias, com finalidades científicas, estudantis etc. Já disseram que serve para alimentar a alma - e, mesmo que você não acredite nessas coisas, pelo menos o papel de estimulante à imaginação você deve reconhecer que ele tem. Capa dura, capa mole, com figuras, sem figuras, poucas páginas, muitas páginas... Enfim, acho que deu para você se lembrar de um livro, não é?
Fim do I.S.
Passava várias vezes em frente à estante. Olhava os títulos, pensava na duração da viagem, em quantos dias ficaria no lugar, se teria tempo livre para ler (e para escrever também, afinal, boas ideias sempre surgem em viagens). Apesar de não gostar de fazer isso, muitas vezes começava um livro novo, porque achava que o que já estava lendo não seria um bom acompanhante; às vezes seguia com o mesmo, para terminar (e erros de cálculos me deixavam abandonado do meio para o fim da estada - sem contar todo o trajeto de volta).
Livros de contos, romances, biografias, clássicos da literatura nacional, estrangeira, em língua portuguesa, em outras línguas... Minha mente entrava em parafuso com tantas opções. O processo seletivo era tão longo, que o tempo de arrumar a mala passava a ser o dobro do normal.
Agora, se me dão licença, há uma estante me esperando. E uma passagem comprada para daqui a algumas horas.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Capítulo V

Mudou-se. E mudou. Antes extrovertido, tornou-se mais introspectivo. Passava mais tempo em casa, não se entrosava com os demais. A Mãe preocupava-se; o Pai, por sua vez, com a cabeça cada vez mais afundada nas dívidas contraídas, e que necessitavam, urgentemente, ser sanadas, nem gostava de discutir o assunto. Para ele, a questão se resumia em uma única frase:

- É a idade.

Tudo culpa da pré-adolescência.

- Imagina quando esse menino for adolescente... – costumava acrescentar depois.

Na verdade, o que os pais não sabiam era que havia um motivo específico para a mudança de comportamento do Filho: a escola nova.

Não que o ensino deixasse a desejar – ao contrário, era uma das melhores da cidade, seja em infra-estrutura, seja no corpo docente, seja na carga horária... Enfim, didaticamente, não havia do que se queixar.

No entanto, infelizmente, escolas são feitas, também, por alunos. E alguns que lá freqüentavam eram da pior espécie – talvez por seus pais terem aberto mão de sua educação por acharem que, devido ao fato de ser uma escola cara, ela é que deveria cuidar da educação de seus filhos.

Garotos mimados, recém-saídos de filmes estadunidenses pré-fabricados para adolescentes, que achavam que o dinheiro poderia comprar tudo, inclusive a humilhação sofrida por quem quer que fosse. E pelos quais Filho não sentia ódio, raiva, nem qualquer outro sentimento correlato; sentia asco.

Portanto, como interagir com elas?

Você conseguiria, caro leitor? Se sim, diga-me como: dissimulando?; sendo falso? Nada disso era do feitio do Filho.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Colcha de retalhos

Saio andando por aí, atordoado. Já passa das duas da manhã. Meu coração não pára de bater acelerado, e meus pensamentos, atropelando uns aos outros, insistem em inibir o raciocínio correto da mente. Ninguém nas ruas, a não ser carros bêbados voltando de farras noturnas – ou indo, ainda; quem sabe? Motoristas possíveis assassinos, pedestres certamente suicidas – existe, no mínimo, a tentativa. Assume-se o risco. Dolo eventual ou culpa consciente? E o que isso interessa a uma mera estatística?

Mas ainda não morri. Infelizmente. Ou não? É de se pensar como a felicidade é efêmera. Ora, a tristeza também. Yin yang. Dois lados da mesma moeda. Reciprocidade. São as cervejas surtindo efeito e me fazendo filosofar demais, como sempre? Ou são pensamentos há muito escondidos no recôndito da alma apenas se exteriorizando? Um pouco dos dois. Talvez.

Engraçado como, em um momento, você está lá, na felicidade. Depois, você está aqui, na tristeza, na revolta, na angústia. Uma porta foi o que separou a casa dela da rua. Claro, sempre há “ela” no meio da história. Ninguém gosta de viver sozinho. Ninguém pode. O que surpreende e faz refletir é ver que, às vezes, não há nem um motivo para isso. Atravessa-se a porta porque se quer, ação traz uma reação, lei de Newton, conseqüências. Nada vai mudar, é só uma porta... É? Viva nessa ilusão. Viva essa ilusão!

Quem sabe tudo não passe, realmente, de uma matrix, onde a vida de cada um já está programada. Ah, não. Ando vendo filme demais, como sempre. Alguns religiosos acreditam em destino. Eu acredito no meu: que eu posso mudá-lo. São só reflexões de uma mente desocupada e na sétima cerveja, espero depois poder lembrar as coisas ruins e esquecer as boas. Ora, das ruins eu tiro uma lição, as boas vão-me fazer viver uma nostalgia inútil e infrutífera. Mas são só reflexões! Reflexões de uma mente em/com fusão.

Chego à casa. Tonto. Minha? Dela? Nossa? Não sei. Só sei que preciso de uma cama. Pode ser a minha, a dela, a nossa. Para dormir. O mundo gira, principalmente aquele ao meu redor. Acho um quarto. Como roda! Minha cabeça pesa, não consigo dormir. Banheiro. Alívio.

Acordo na tarde seguinte. Dor de cabeça. Nunca mais bebo na vida. Telefone toca. Uma voz me chama para ir à casa dela para conversar. Reflexões sóbrias – mas nem por isso saudáveis – ao longo do caminho. O que será que a porta vai separar dessa vez?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A loteria

O sonho de Eduardo sempre tinha sido ganhar na loteria. E, para isso, cumpria um ritual religioso: semanalmente, fazia uma fezinha, acreditando que “dessa vez, vai”. E lá se vão longos dezoito anos.
O rito desenhava-se em várias etapas. Havia aquilo imperceptível a olho nu (como, por exemplo, sempre utilizar a mesma cueca – há dezoito anos! – ao ir fazer seu jogo), mas também aquilo que os outros já haviam notado, como sempre percorrer o mesmo caminho, pagar sua aposta no mesmo guichê – ainda que a fila estivesse maior – e dar o dinheiro, trocado, no valor exato. Religiosamente. Ainda que fosse ateu.
Embora há dezoito anos obedecesse a estas ordens mentais (pode-se dizer que era uma espécie de transtorno obsessivo-compulsivo), não tinha nenhuma razão para isso; afinal, não havia ganhado nada ainda. Na verdade, já fora contemplado algumas vezes, mas nunca com o “prêmio cheio” - e uma das regras autoimpostas consistia em só resgatar o valor se acertasse os seis números. “Ora”, costumava dizer, “vai que eu resgato? Perco, para sempre, a minha chance de ganhar o prêmio total, tenho certeza disso”.
Um belo dia, acordou com uma sensação diferente. Sabia que havia chegado o Dia D – não sabe como tirou essa conclusão, só sentiu um estalo. E gostou dele. Afinal, o prêmio estava acumulado em milhões (venhamos e convenhamos: milhões são muito dinheiro até mesmo em dólares ruandeses – se é que existe essa moeda)!
Concentrou-se. Vestiu a cueca de guerra, trajando-se por completo em seguida. Tomou o gole d'água e foi à rua. Pôs, primeiramente, o pé direito na calçada; olhou para o céu e seguiu. No meio do caminho, havia uma pedra; sem se lembrar de Drummond, chutou-a e continuou sua marcha, até chegar à lotérica. “Ótimo, só três pessoas!” A sorte realmente estava do seu lado.
Foi cumprimentado pelo Dias, entregou o bilhete preenchido e as moedas e voltou à casa, a fim de aguardar o resultado, que só saía no começo da noite. Seria uma espera angustiante; mas, para quem já esperava há dezoito anos, algumas horinhas não fariam diferença.
No horário marcado, encheu a garrafa d'água e postou-se ao lado da TV: iria acompanhar o sorteio ao vivo. Não estava nervoso – sabia que seria ele. E a certeza aumentou ainda mais ao sair o primeiro número: vinte e cinco.
Tomou o primeiro copo d'água e lembrou-se do que sempre dissera que iria fazer com o prêmio que recebesse: metade seria doada para os pais; um quarto, anonimamente para instituições de apoio aos necessitados; o que sobrasse seria para pagar contas atrasadas e depositar o restante na poupança. Não pensava nem mesmo em abandonar o emprego – não saberia como viver “sem fazer nada”, só de renda.
Quarenta e três.
Segundo copo.
“Por que anonimamente?” Um pouco de reconhecimento da sociedade não faria mal nem atrapalharia a vida de ninguém. Pronto, estava decidido: doaria, mas faria constar seu nome em todos os principais jornais da cidade. E revistas de grande porte nacionais.
Trinta e sete.
Terceiro e quarto copos.
Na verdade, metade para os seus pais era muito. Ainda mais que, somado a um quarto que seria doado às instituições, só sobraria para ele, que sempre apostou, sempre teve o trabalho de ir à lotérica, preencher o bilhete, acompanhar o sorteio etc. meros vinte e cinco por cento. Seria injusto. Ele deveria ficar com, pelo menos, metade.
Nove.
A garrafa já estava na metade. E esvaziando.
Viajaria. Com certeza, compraria um carro novo. E outra casa. Com muitos quartos. E uma casa na praia. Pensou nas festas que iria, nas pessoas novas que conheceria. Iria gastar bem o dinheiro. O restante iria para os pais e para as instituições.
Dezesseis.
Mais um copo. Transpirava de excitação.
Meu Deus! O chefe que fosse às favas! Largaria tudo; viveria como sempre sonhara, um verdadeiro novo rico, mas seria diferente de todos os outros. Teria experiência de vida, manteria a cabeça no lugar, saberia sobre o que conversar.
Pôs-se a rezar. A garrafa acabou.
Cinquenta...
e...
oito.
Na semana seguinte, já estava novamente na fila da lotérica, após o mesmo percurso, com a mesma cueca, o mesmo dinheiro trocado, o mesmo bilhete e o mesmo Dias esperando por ele. Mas aprendeu a lição: passou a ignorar todas as pedrinhas que se colocavam no seu caminho.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ciber-reflexões

Cuidado! Tudo que você fala poderá ser usado contra você mesmo
Cuidado! Tudo que você fala poderá ser usado
Cuidado! Tudo que você fala poderá ser
Cuidado! Tudo que você fala
Cuidado! Tudo que você
Cuidado! Tudo
Cuidado!
Tudo.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A vida como ela é...*

Batista foi um homem vivido. Acostumado a ser o bon vivant invejado pelos homens e admirado pelas mulheres, no auge dos seus trinta anos, tinha histórias homéricas a contar. E sempre divertia a turma de amigos da cerveja e da bola quando começava a contar das suas.
- Ah, a Carminha, então... Aquela ali sabia bem o que fazer na hora H!
Lá ia mais meia hora de um monólogo, às vezes entrecortado pelas risadas ou pelos uivos de admiração dos amigos que haviam acabado de bater a pelada semanal – da qual Batista não participava, afinal, “não queria correr o risco de quebrar as pernas e ficar de molho pro sexo” na época em que o homem vivenciava seu esplendor sexual (está comprovado cientificamente, podem procurar na Super Interessante).
Se alguém inventasse de escrever um caderninho com todas as histórias de Batista – e ele tinha um registro de todas as mulheres com as quais se envolveu, com nome, idade, quando e, principalmente, como –, daria, no mínimo, três volumes, com novas edições lançadas semanalmente. Sem contar as páginas já escritas que, de vez em quando, Batista gostava de reler; e lá iam novos registros de nomes antigos, apenas algumas páginas mais adiante.
Até o dia em que conheceu Marina. Mulher bonita, olhos azuis, cabelos pretos, cobiçada – de início, Batista só queria escrever mais um nome no caderninho; no entanto, Marina soube usar de seu charme e conquistar Batista, que, ao cabo de um mês e meio (uma eternidade!), estavam namorando.
Não que isso impedisse escapadas de Batista. Afinal, “era homem”, e seu instinto natural mandava na sua mente.
- O homem é um ser poligâmico, essa história de monogamia é a maior mentira da humanidade – era praticamente o seu mantra.
E costumava acrescentar depois:
- Mas eu estou falando do homem! A mulher não...
No entanto, por mais que continuasse aumentando seus registros no caderninho, novas histórias eram cada vez mais raras. E, de vez em quando, Batista ainda tinha remorso (um sentimento até então inexistente, já que considerava traição algo normal). Flashbacks eram o que acontecia mesmo com maior frequência, enquanto os dias de pelada e cerveja com os amigos iam ficando paulatinamente mais monótonos.
- Pô, Batista... Essa história a gente já ouviu!
No entanto, tinha uma que Batista não contava para ninguém. Não tão bonita, mas de uma sensualidade que Batista não conseguiu achar em ninguém mais. Claudinha foi sua namorada ainda durante a adolescência e agora estava casada com um sargento do Exército (por temer pela sua vida que Batista não relatava a ninguém suas relações extraconjugais).
Até Claudinha se casar com Damião, Batista ainda se encontrava com ela com certa frequência; após, os encontros foram se rareando, mas cada vez mais intensos e perigosos. Um encontro esporádico aqui, outro acolá; não tinha uma data fixa, mas obedecia a um cronograma não estipulado de uma vez por mês. Em motéis a trinta quilômetros da cidade, em quartinhos alugados, no carro (no carro!)...
Marina não suspeitava de nada, já que Batista usava a desculpa de que estava procurando emprego. “A crise tá difícil, meu chuchuzinho!”, ele repetia, quando Marina vinha se lamentar que a herança que seu pai havia deixado já estava acabando, que já era tempo de Batista virar um homem sério.
A desculpa do emprego não deixava de ser uma meia-verdade (consequentemente, uma meia-mentira também). De vez em quando, Batista ia a algumas entrevistas antes de se encontrar com Claudinha. Inicialmente, só entrevistas que remetiam ao seu sonho de infância: gerente de hotéis. Entretanto, sem falar inglês, mal sabendo falar o português, sem haver concluído o ensino médio, nenhuma empresa queria contratá-lo.
Passou, então, a recorrer a opções secundárias: recepcionista de hotel. Porém, acabava recaindo nas mesmas dificuldades para ser gerente. Enquanto isso, os queixumes de Marina passavam a ser mais frequentes, assim como os encontros com Claudinha (de quinze em quinze dias).
O caderninho já havia sido abandonado. Os amigos da pelada e da cerveja, idem. O único que permanecia intacto era o velho sonho de trabalhar em um hotel, logo abandonado quando surgiu a oportunidade de ser caixa em uma loja de artigos masculinos. Era o emprego ideal para Batista – não exigia muita experiência nem qualificação, o trabalho não era muito duro. A remuneração também não era muito boa, mas para quem não ganhava nada estava ótimo.
Nessa época, os encontros com Claudinha aconteciam todos os dias. Até mesmo na casa dela. Se Batista ainda escrevesse no seu caderninho, era capaz de registrar “Marina” como aventura, tamanho o descaso com que conduzia seu casamento.
Seguiu para a entrevista de emprego confiante. Conhecia o dono da loja, era filho de um antigo amigo de pelada. Já considerava o trabalho como seu. Saiu da entrevista ainda mais certo de que em um mês receberia seu primeiro salário e, no caminho, pensando em surpreender Marina, comprou-lhe flores e dirigiu-se à sua casa.
Quando chegou à casa, não teve nem tempo para recuar. Damião, de saída para o trabalho, atingiu-o com quatro tiros.

* homenagem a um amigo, daquele tipo que a gente não encontra em qualquer bar.