Continuous, entire, universal, long lasting.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
De repente
...
E de repente...
E de repente
Da cama fez-se a creche
E de bebê
Passou à criança
Tempo de descobertas
Tempo de brincadeiras
Lápis de cor e balas
Parques e palmeiras
E de repente
Da criança fez-se a moça
Agora na flor da idade
Que traz novas descobertas
Junto com a responsabilidade
De se crescer consciente
Que no mundo também há maldade
E de repente
Da moça fez-se a mulher
A vida se abriu em oportunidades
Mostrou o caminho a ser seguido
Tomou o rumo da felicidade
E de repente
Da mulher fez-se a mãe
Transcorrida uma geração
Repete-se a história
O mesmo filme na memória
A memória do coração
E de repente
Da mãe fez-se a avó
Transcorrida uma geração
Repete-se a história
O mesmo filme na memória
A memória do coração
E de repente...
...
quinta-feira, 8 de março de 2012
FIFA, vai ter bolo!
Vamos falar de metáforas? Tá bom, vamos começar com algumas hipóteses.
Suponha que, na sua casa, você e sua família estejam precisando de diversas melhorias - estruturais, financeiras, profissionais, sejam quais forem.
Suponha que vocês necessitam dessas melhorias há muito tempo.
Suponha que seus pais digam, diariamente, não possuir condições - sejam financeiras, sejam de qualquer outra natureza - de realizá-las prontamente e coloquem a culpa na crise (fica a seu critério escolher qual delas).
Suponha, agora, que um amigo dos seus pais, por qualquer motivo, peça para que vocês cuidem do seu bichinho de estimação.
Suponha, então, que, milagrosamente, seus pais decidam promover todas as melhorias necessárias para receber bem o ilustre hóspede.
Agora, me responda: como você se sentiria? Conseguiu identificar sobre o que estou falando?
Bem, amigos, estou falando mesmo da Copa do Mundo.
A lista de necessidades de Fortaleza (para ficar apenas no local) é extensa: vai desde segurança e educação a transportes (metrô?) e saúde. Nos últimos anos, parece que a cidade parou no tempo, e o caos só tem aumentado. Não, isso infelizmente não é um "privilégio" apenas fortalezense - falo também do estado, da região e do País.
Aí, de repente, BUM! Agora é a hora e a vez do Brasil! Copa 2014, Rio 2016... Viva, agora essas obras saem!
Opa, peraí, calma lá! Quer dizer que, só porque vamos organizar dois eventos esportivos, devemos nos maquiar para isso? A população deste "País tropical, bonito por natureza" sempre ficou em segundo plano, e seus anseios e carências nunca foram atendidos. Agora, devemos nos adaptar às condições impostas por organizações PRIVADAS internacionais e fazer o possível e o impossível para atender às suas exigências?
Eu não estou dizendo que as intervenções e obras não são necessárias; bem ao contrário, na verdade. Mas, a que preço? Ouvir representantes da FIFA falarem mal do País, impondo suas regras de comercialização de ingressos e bebidas alcóolicas em estádios (em flagrante desacordo com as leis brasileiras!), criticando todo um Poder (tá, é o Legislativo, eu sei... Mas quem esses gringos pensam que são para interferirem assim no Poder de um Estado?), é algo ultrajante. Mais ainda é ver a cachoeira de recursos escorrendo das obras públicas, dentre eles, estádios privados - para onde, nós bem sabemos.
Não se iluda: parafraseando uma expressão antiga, essas obras são apenas "para a FIFA ver". Alguém tem dúvida de que, depois da Copa do Mundo, o grosso da população vai ficar a ver navios? As melhorias não serão como tentam pintar por aí, pode ter certeza. Basta você se lembrar de que a crise na Grécia se agravou bastante por causa dos gastos públicos com as obras para as Olimpíadas de 2006.
Bem, amigos, tinha muitas outras coisas para escrever, mas não quero cair no clichê de falar que futebol é apenas esporte e, como tal, deveria ser tratado com menos seriedade e mais diversão; não quero rememorar que devemos lutar, sim, por melhorias na saúde, na educação, no transporte público, na igualdade social, no acesso a serviços básicos, na segurança etc., mas melhorias para que nós, o povo, desfrutemos, e não os demais; e não quero, por fim, relembrar a política do pão e do circo, que, nos dias de hoje, pelo visto, foi transformada única e simplesmente na política do circo, já que o pão que o povo come é só aquele que o diabo amassou. Há muito tempo.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Quarenta e dois
- Diacho, travou de novo.
- Que foi, Zé?
- O bicho aqui.
- Que tem ele?
- Tá dizendo que não vai fazer o
que eu tô pedindo.
- Oxe! Por quê?
- Parece que "a pergunta, se
respondida, trará consequências irremediáveis daqui a 38784,5 milhões de
anos".
- Hein?
- É o que tá escrito aqui, na
tela. Olha.
- Valha, é mesmo. E agora?
- Hein?
- E agora?
- Agora não, cara. Só daqui a
38784,5 milhões de anos.
- Não, Zé. E agora, vai fazer o
quê?
- Acho que mudar as palavras...
Vai que dá certo, né?
- Boa; vai, muda aí.
- "A ordem dos fatores não
altera o produto. A pergunta permanecerá sem resposta para o bem da
humanidade".
- Eita, Zé. Tá querendo acabar
com o mundo, é?
- Que acabar o mundo o quê!
- Então por que ele disse isso?
- E eu lá sei?
- E quem é que sabe?
- É capaz do chefe saber. Ou o
pessoal da informática.
- Mas o pessoal da informática é
a gente agora.
- Hmm... Só o chefe, então.
Peraí, já sei! Qual aquele site que diz tudo?
- Como assim?
- Aquele de pesquisa!
- O gugol?
- É, ele mesmo. Vou entrar e...
"Acesso bloqueado para pesquisas nocivas à sociedade". Ah, quer
saber?
- Hm?
- Vou desligar.
- É, desliga. Desde que esse tal de Manteiga Voadora foi feito que a gente não consegue fazer mais nada.
- É verdade. E sabe uma coisa
dele que eu nunca entendi?
- O quê?
- O que tem a ver esse cisne
preto no canto da tela.
- Acho que isso nem o chefe sabe.
Click.
- Engraçado... Tudo que eu queria
era saber se espresso se escreve com S ou com X.
- Pô, Zé!
- Que foi?
- Da próxima vez, pede um
cafezinho.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
O teu e o meu
Sob o alvo céu duma cálida noite
[Encontrei-te
E, atentamente,
Qual um Hercules Poirot
[Acompanhei-te
Teus passos, teu sorriso
[Vislumbrei-te
Divisando, ao longe
[Encontrei-te.
E, encontrando-te,
Acabei por perder-me.
Perdi-me
[No
teu suave andar
[Ao
cruzar com teu olhar
Petrifiquei-me
[No
vale das tuas curvas
Escalei-me
[E,
à minha Afrodite-musa
Inclinei-me.
E perdi-me.
Deste sentimento, repentino,
Que fez nascer o ti em mim
[E
o mim em ti
E, num só, dois corpos amalgamou
Não há como fugir:
[Isto
é o amor.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Feicibuquianas (parte I)
Não sabia
qual era a vez que aquilo acontecia a Bel, mas, diante do seu apelido –
Camaleão –, tinha certeza absoluta de que estava bem longe de ser a primeira.
Na verdade, sempre foi assim, desde a infância: novo grupo, novo personagem.
Já se havia
mostrado comediante, introspectivo, tímido, extrovertido, rico, pobre,
inteligente, abobalhado; um cara de muitos amigos, com cara de poucos amigos,
ligado na família, dependente da namorada; alguém que sabia enfrentar as
adversidades da vida, alguém que baixava a cabeça para elas; bem-humorado,
mal-humorado, triste, sisudo...
Acima de
tudo, o principal é que sempre fizera todos acreditarem que ele realmente era
daquele jeito. E, no final, isso acabou se transformando no seu maior problema.
Afinal, a partir do momento em que ele passou a se incluir naquele grupo e
acreditar, ele também, que poderia ser todos aqueles caracteres, não soube mais
se definir. É por isso que, até hoje, seu “quem sou eu” permanece sem resposta.
E, quando
alguém tenta preenchê-lo, acaba caindo em contradição com quem já o tentara
anteriormente: as máscaras estão lá, superpostas, amalgamadas, dificilmente
separáveis. Ele sabe que o único que pode fazê-lo um dia é ele mesmo, mas teme
que, no final, só reste um rosto desfigurado, retalhado, indefinível. Se isso
acontecer, como se apresentará aos outros?
sábado, 28 de janeiro de 2012
Medo de 2022
"Até bem pouco tempo atrás,
poderíamos mudar o mundo. Quem roubou nossa coragem?"
Primeiro de
junho de 1962. O jovem Epaminondas está eufórico; afinal, depois daquela
Conferência Extraordinária (que foi mesmo extraordinária - ou do balacobaco,
como gosta de falar), essa será a primeira ação de grande vulto da juventude
comunista brasileira. Sim, é óbvio que já houve outras ações anteriormente; mas
essa promete bem mais. É consideravelmente maior, sem contar que todos os seus
amigos estão bastante engajados na luta. Quem sabe o que os espera? O que o
futuro reserva a eles?
Reúne-se com
seus amigos. Conversam sobre um certo Guevara, um já bastante comentado Castro.
Por bem ou por mal, Kruschev também é um nome bastante lembrado na rodinha. Ah,
e é óbvio que não se pode esquecer daquele. É, ele mesmo; o grande responsável
por difundir o espectro vermelho que assombra o mundo. Quatro letrinhas que
traduzem uma ideia resumida em uma única palavra, mas que atrai a ele e a todos
os seus amigos vermelhos: Marx. Também há Engels, claro; mas não é tão comum
falar-se em engelismo, ao contrário do marxismo, palavrinha proibida
pós-Revolução Cubana.
Até o fim do
ano, envolve-se com amigos católicos, tendo, inclusive, sido membro da
Juventude Universitária Católica (abaixo a ditadura!); participa da greve geral
nacional (vamos parar o país!); e resiste por três meses na greve do um terço,
paralisando quase todas as quarenta universidades brasileiras. E agora, quem
tem a força?
Infelizmente,
quem tem a força é a direita. E a ditadura (opa, perdão pelo exagero nesta
folha) se instaura no país, durando quase vinte e cinco anos.
...
Sete de
setembro de 1972. O adolescente Edson acompanha, atentamente, a parada militar
em comemoração ao sesquicentenário da independência brasileira, ostentando um
cartaz, feito à mão, que apresenta apenas uma simples interrogação - nada mais,
nada menos.
No entanto,
isso é o bastante para tornar clara a sua opção: dentre as alternativas
oferecidas, opta pela segunda delas e deixa o país, passando, desde então, a
ser um exilado em Montevidéu.
...
Quinze de
novembro de 1982. Mário não desgruda os ouvidos das conversas dos mais velhos.
Quer descobrir em quem eles vão votar. Afinal, apesar de a censura ter impedido
a exibição de "Pra Frente Brasil", o país vive um clima de abertura
política; tanto é verdade que hoje é dia de eleições para governador (quem poderia
imaginar isso anos atrás?)! Uma vitória daqueles que tanto lutaram - e Mário
pode se considerar um deles.
Percebe,
então, que as bombas em bancas de jornal não foram à toa. Sua crença na volta
da democracia está forte; suas fichas, depositadas no Brizola. Será que agora
vai? O voto para presidente vai voltar a ser direto?
Não foi; as
consequentes Diretas Já foram um sucesso de um fracasso global.
...
Dezesseis de agosto
de 1992. Pedro e sua turma se divertem, vestidos de preto e com os rostos
pintados da mesma cor. O sinal de luto é contra a corrupção: neste domingo
negro, o tiro de Collor saiu, definitivamente, pela culatra.
O grito de
guerra é entoado por todos: "ai, ai, ai, ai; se empurrar, o Collor
cai".
A juventude
não aguenta mais; são muitas as denúncias de corrupção. São muitos os pais que
perderam seus ativos financeiros, o dinheiro depositado em bancos foi
confiscado, passaram de ricos a pobres da noite para o dia. A culpa é de quem?
Ora, só pode ser de quem decretou o confisco. Fora, Collor!
Um mês e treze
dias depois, eLLe caiu (infelizmente, em 2007, retornou à vida política, mas
isso é outra história. Ou não).
...
Cinco de
outubro de 2002. A
Constituição Federal está perto da sua maioridade, e a expectativa é grande
para as eleições: afinal, pela primeira vez ele tem grande chance de ser
escolhido Presidente da República.
Manifestações
desse ímpeto são proibidas; a lei seca está em vigor, mas sempre há um jeitinho
(ainda mais para aqueles a quem é vedado o direito de beber por natureza - ou
melhor, pela faixa etária).
Felipe e seus
amigos distribuem panfletos, bottoms, ocupam esquinas, fazem bandeiradas,
apitaços, compram os cds com os jingles da campanha... Engajam-se, enfim.
E,
surpreendentemente, dá certo. Digo...
...
Vinte de
janeiro de 2012. Raul está sentado na sua cadeira, pensando. Decide agir.
Afinal, quem o governo dos Estados Unidos (porcos imperialistas!) pensa que é
para barrar seu acesso aos arquivos na internet? Ele nunca se sentiu tão
afrontado na vida inteira, afinal, foi um direito conquistado a duras penas.
Abre o seu
computador de última geração, conecta-se no Facebook e faz um longo texto, de
quatro parágrafos, criticando os métodos empregados pelos Estados Unidos
(porcos imperialistas!) na sua política com os demais países, bem como de
direitos autorais. Entende que pode - e deve - baixar e acessar o que bem
entender, independente do que os Estados Unidos (porcos imperialistas!) pensam.
Apesar de
demorar muito tempo redigindo o texto (mais de cinco minutos, olha só!), fica
feliz com o resultado final. Publica no seu mural e, satisfeito, vê os
comentários dos seus amigos - virtuais - apoiando e concordando com as suas
ideias.
Enquanto sua postagem
é curtida, em pouco menos de cinco minutos, 1079 vezes e compartilhada outras
357, chega mais um convite de evento.
Ah, não! Mais
uma marcha contra a corrupção e pelos direitos básicos da população? Esse povo,
definitivamente, não tem mais nada pra fazer.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Amem
Seu céu é a Terra,
a vida presente.
A vida, um presente?
A vida, presente!
Contudo, mais que tudo,
o porvir lhe aflige;
à humanidade tenta legar
uma herança tão singela:
um mundo melhor
e uma vida mais bela.
É questão de princípio,
meio e fim também.
Respeita a todos - é verdade;
almejando ser respeitado.
Afinal, não é de liberdade
que se orgulha a sociedade?
Quer poder optar
em quem - ou se - acreditar.
Quer poder falar
que não mais existe
a Santa Inquisição;
mas todo dia
alguém insiste
em lhe fazer uma pregação,
tentando lhe salvar do pecado,
da liberdade de religião.
A essa altura, já é patente:
um deus não tem.
E que mal tem?
Não seria o essencial
ignorar o credo pessoal
e, simplesmente,
fazer o bem?
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Ô classe desunida (ou Metamorfose espaço-tempo-laboral)
- Alô?
- Alô, bom dia!
- Bom dia!
- Que bom! Senhor, eu falo em nome da empresa X. Gostaria de lembrar que esta ligação vai estar sendo gravada e...
Tu tu tu.
- Alô?
- Alô, bom dia!
- Bom dia!
- Senhora, eu falo em nome da empresa X.
- Qual? A Y?
- Não, senhora. A X.
- Ah, pensei que fosse a Y.
- Não, senhora. Obrigada pela atenção. Antes de mais nada, gostaria de lhe dizer que esta ligação vai estar sendo...
Tu tu tu.
- Alô?
- Alô, bom dia!
- Bom dia!
- Senhor, eu falo em nome da empresa X.
- Como é?
- Eu falo em nome da empresa X. Gostaria de dizer...
- Seus safados!
- ... que esta ligação...
- Como é que vocês ainda têm a coragem de me ligar?
- ... vai estar sendo...
- Vocês são realmente uns caras-de-pau!
- ... gravada.
- Já não basta o processo? Seus filhos...
Tu tu tu.
...
"Que dia!".
Fila. Ônibus. Aperto. Trânsito. Congestionamento. Encoxadas. Cantadas (de pedreiro). Caminhada. No escuro.
Finalmente, casa.
- Boa noite, filho!
- Mãe, a internet passou o dia fora do ar!
- Ah, de novo? Essa operadora vai escutar umas poucas e boas! Me passa o telefone.
...
- Alô? A senhora é a titular?
- Minha filha, deixe de conversa fiada. Vocês são realmente uns sem-vergonha.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Cara e coroa
E daqui a quarenta anos
Onde você deseja estar?
(E onde estará?)
O que deseja realizar?
(E o que terá realizado?)
(E abandonado?)
Sonhos,
Feitos.
Preocupações,
Lições.
Devo fazer?
Deveria ter
feito.
Abro mão?
Deveria ter
feito.
Quando?
Já passou?
Aproveito agora?
Mais tarde?
Carpe diem
- mas com
responsabilidade.
As dúvidas atormentam
CotidianAmente
Já preocupada
Com o presente
Mas não nos deixando sentir
Curtir
O
momento
Adiando a vida
Aumentando o medo
Eis que um dia
Aquilo que era o futuro
Agora é o presente
Deixando o passado
No seu devido tempo-lugar:
O do passar.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Quanto mais queijo, menos queijo
Cinco da manhã. "Ticking away the moments that make up a dull day" começa a soar no alarme do seu celular - um Iphone 58G, última geração, presente da empresa no último Natal. Remelevanta-se, sonambulisticamente se dirige ao banheiro para duchar-ze e, em seguida, cumpre todo o resto do ritual previsto: ternocaféscovabeijonaesposabomdiaprosfilhospénatábua.
No caminho, um olho na estrada e outro no Ipad (esse foi aquisição própria). Ao ver as primeiras notícias (no Japão, já nem são tão primeiras assim), telefona à secretária para checar a agenda e ver as reuniões previstas, com as respectivas pautas. Em menos de cinco minutos, um SMS chega ao seu Iphone com todas as informações pedidas.
- Essa Lurdinha, tão eficiente...
É recebido no escritório com o primeiro cafezinho do dia, que "acabou de sair do fogo", como ritualisticamente diz a eficiente Lurdinha. Dirige-se à sala de reuniões e, às dez da manhã, já fechou mais negócios que seu pai conseguiu em quinze anos de empresa. Não tem sequer tempo para comemorar isso, afinal, para ele, não é nada além do que faz corriqueiramente.
Às onze, recebe uma ligação da esposa pedindo para buscar os filhos no colégio.
"Folgados! No meu tempo, ia de ônibus". No seu tempo, Sr. X, a violência era menor.
Como a aula termina ao meio-dia, sai pontualmente às onze e quarenta e cinco na sua Mercedes conversível, que faz de zero a cem em três segundos (apesar de nunca haver conferido isso, já que dentro da cidade não consegue atingir mais de quarenta). Por conta desse delivery de pimpolhos, volta "correndo" (dentro do limite ruaestabelecido de quarenta quilômetros por hora) para o escritório e, no meio do caminho, pede para a Lurdinha pedir o seu almoço: um sanduíche do McDonald's. É a terceira vez na semana, e ainda estamos na terça-feira.
A tarde corre inundada por novas notícias que, ao cair da noite, já são velhas; não desgruda os olhos do smartphone, tablet, gadget, ipad, iphone, que fome! Quando acaba a quinta xícara de café do dia, percebe que é hora de voltar para casa - momento em que o limite ruaestabelecido cai para quarenta horas por quilômetro. Não vai ser a primeira - nem a última - vez a pensar em levar um colchão inflável para a empresa e passar a dormir lá. Quem talvez não goste da ideia é a Sra. Y, mas é só contrargumentar que vai ganhar mais que fica tudo bem.
Ao chegar à casa, liga a TV no Jornal Nacional. A moça da previsão diz que o dia seguinte será de tempo bom: céu aberto e sol forte, ideal para ir à praia. Pergunta à Sra. Y se ela lembra a última vez que foram à praia, e não conseguem concordar se há dois ou cinco anos. E a conversa morre aí.
A vida corre e, no leito de morte, ele descobre que não importa o tempo da natureza estar ideal para uma praia se o tempo das pessoas não lhes permitir desfrutar de tal luxo. Pena que já é tarde demais.
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