Continuous, entire, universal, long lasting.

sábado, 18 de maio de 2013

Identidade


Aquilo que sou
Quase sempre não é,
Necessariamente,
O que pretendo ser.

Se
A vida constrói,
Se
A vida destrói...

Você.

O importante é,
Simplesmente,
Ser.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Colecionando vidas


Desde a infância, Santiago era um viciado em colecionar coisas. Tampinhas, álbum de figurinhas, bonecos... Teve uma fase que até namoradas Santiago colecionou! Mas, pra satisfação de sua mãe (e tristeza de Santiago), essa fase não durou tanto assim. As pessoas achavam que essa história de colecionar logo passaria, mas o que aconteceu foi exatamente o contrário: as coleções foram ficando cada vez mais sérias.
Até que, ao chegar à maturidade, Santiago passou a colecionar livros. E a dita coleção passou a ser séria. Catalogada, organizada em estantes por categorias, as categorias por subcategorias, as subcategorias por autores em ordem alfabética. E tornou-se permanente.
Santiago nunca mais se desfez da sua coleção de livros - ao contrário, encarregou-se de aumentá-la diariamente, indo todo santo dia à livraria que havia perto de sua casa. E não fez tanta diferença assim quando a livraria fechou: Santiago achou outra para substitui-la. O importante mesmo era comprar mais e mais livros.
Minto: na verdade, o importante não era só comprá-los, pois Santiago impunha-se como obrigação ler todos os livros que adquiria. Não queria só ter, queria ler. Então, o que parecia ser algo saudável (afinal, ler nunca é demais), passou a ser obsessão. Santiago obrigou-se a todo dia comprar novos livros, só sossegando quando os terminava. A vida resumiu-se a adquirir os livros e lê-los, em um círculo vicioso que inibiu a sua vida social e profissional.
Acontece que aquilo que para os outros era obsessão, para Santiago era uma simples rotina. Lia desde Platão e Aristóteles a Danielle Steel, passando por Machado de Assis, Shakespeare, Alexandre Dumas e, mesmo, Paulo Coelho. Todo dia, o dia todo, comprava um livro e lia algo novo. Montou uma biblioteca exageradamente grande, de fazer inveja mesmo à de Alexandria, organizadamente catalogada.
Até o dia em que sua coleção se completou.
Isso mesmo, não tinha nenhum livro que Santiago não tivesse já comprado. Assim, não lhe restou outra saída: foi encontrado três dias depois, pendurado no último degrau da escada de sua biblioteca. Em uma folha, no bolso de seu casaco, havia apenas uma palavra: fim.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Encontros & desencontros


Foi bem ali, na esquina de algum tempo atrás
Do alto dos meus quinze anos
Que pela primeira vez te avistei
E a tua lembrança que me vem à mente
Não sei se me mente:
Será que sonhei?

Aquela imagem que não se esfaz
Vestida de verde, provocando danos
Invadiu meu corpo, minha alma e meu ser
Passeou no meu passado e meu presente moldou.
Uma brisa violenta que me derrubou
E alimentou um coração que sequer sabia ter.

Em que espaço-tempo escondes teus sinais?
Foste da minha razão meros enganos
Ou do meu coração simples criação
Para ocupar o lugar que o nada preenchia
No tempo em que o nada ainda havia
E se confundia com a emoção?

Sei que desde aquele dia não te acho mais
Penso que foste obra dos anjos
Que te fizeram com tais arranjos
Bem ali, num tempo jamais.

terça-feira, 12 de março de 2013

Só Chico

Seu nome era Chico, nada além disso. Só Chico. Tinha gente que, pra frescar com a cara dele, chamava de "Só Chico". Não sei se para evitar brigas bestas ou por não entender mesmo, ele atendia e muitas vezes ainda corrigia:
- Só Chico, não. Chico. O só é só quando perguntam meu sobrenome, eu num tenho não.
Solitário, Chico cresceu na rua. Ou melhor, no que havia dela naquele tempo. Era só areia e, de vez em quando, um matinho seco. Vivia do que lhe davam os menos lascados (o que não era lá grande vantagem) e aprendia o que se lhe oferecia de mão beijada. Não sabia o que era brincar, pois a vida não lhe permitia momentos de diversão.
Mas, ainda que não pensasse em se divertir, as necessidades do corpo de Chico acabaram por aparecer um dia. E, solitário como era, ele acabou se engraçando com a primeira que lhe deu atenção: a jumenta Providença, que ficava no sítio do Seu Tonico. Chico, na verdade, não entendia nem o que tava acontecendo. Só sabia que tinha que ficar cada vez mais perto da Providença, e sempre se aproximando mais.
Daí até consumar o fato foi um pulo.
Fonte de alívio diário, o relacionamento começou a se tornar sólido. Chico não gostava nem de ver quando os vaqueiros do Seu Tonico montavam na sua Providença, mas tinha que entender: afinal, era trabalho.
E Chico, que antes era conhecido como "Só Chico", passou a ser, por mais de cinco anos, o "Chico da Providença".
O problema veio quando o Tonico descobriu - tal qual o corno, foi o último a saber. Armou-se um escarcéu na cidade, e o delegado teve que tomar uma atitude. A saída, para tranquilizar Tonico, foi prender o Chico e enquadrá-lo na lei dos crimes ambientais, por maus tratos contra animal. Na verdade, o delegado devia favores a Tonico e, se pudesse, teria enquadrado Chico em estupro contra vulnerável.
Dizem que hoje em dia se vê por aí, nos cantos, cabeça baixa, sempre aguardando um carinho e o tratamento que nunca teve na vida. Quem? Ora, a jumenta Providença.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Felicidade conjugal


Seu Zeca e Dona Maria formavam um belo casal - talvez o mais longo que eu já tenha conhecido na minha vida. Aliás, tudo relacionado à vida de ambos foi bastante duradoura. Conta-se inclusive que, certa vez, Dona Maria, triste com o passamento daquele que fora seu companheiro por mais de oitenta anos, disse que Seu Zeca partira por problema renal. E completou: "essa nossa família tem esse rim assim, fraco". 
Adotei ambos como meus terceiros avôs (ou, antes: eles me adotaram como mais um neto) e, quando criança, meu maior orgulho era espalhar que eles eram vizinhos de uma das maiores personagens vivas do Ceará: o Seu Lunga - ah, a simplicidade infantil. Confesso: inventava para os meus coleguinhas, para melhor passar, que, sempre que os visitava, me encontrava com o Seu Lunga, seja na calçada, seja mesmo na loja do Seu Zeca. E, naquela tenra idade, isso era suficiente para me render atenção e fama.
O tempo passou e o meu orgulho deles, hoje em dia, mudou a sua origem: decorre dos seus ensinamentos (e não foram poucos). A maioria deles ligada à felicidade conjugal.
Uma dessas lições me foi repassada em pessoa pelo próprio Seu Zeca. O dia, como costumava ser, era domingo. A família estava toda reunida, a mesa posta e o São Geraldo (de vidro, claro!) despejava nos copos. Enquanto as conversas e as risadas corriam solta ao redor da mesa, as esposas serviam os pratos de seus respectivos. Ao presenciar aquela cena, Seu Zeca disparou:
- Nunca!
As vozes silenciaram, apenas uma risadinha tímida quis cortar a bola de feno que atravessou a sala de jantar após o brado de Seu Zeca, logo interrompida pela sua fala firme:
- Nesses anos todos, nunca deixei a Maria fazer meu prato.
Um gentleman? Um cavalheiro de primeira classe que se revelava assim, tão de repente?
Um de seus filhos, surpreso, comentou:
- Que bonito, pai!
- Bonito, nada! - veio a resposta. Vai que eu me acostumo, um dia ela briga comigo e eu fico sem comer?
O maior dos ensinamentos, no entanto, eu lamento não haver presenciado. Assim, não sei se o repasso da forma como ocorrido o fato, mas o importante é que foi assim que o absorvi, passando a, desde então, carregá-lo comigo diariamente.
Alguém, um dia, tendo Seu Zeca e Dona Maria como baluartes de um matrimônio feliz e duradouro, quis saber o segredo de um bom casamento. Conversou isoladamente com a Dona Maria e, em resposta, obteve a declaração:
- Meu filho, vou lhe contar um segredo: sabe, eu adoro a pontinha do pão, mas sempre dou pro Zeca comer...
Ele fez cara de que tinha entendido, mas, na verdade, não entendera nada. O tempo passou e a tal pessoa, ainda com a pulga atrás da orelha, resolveu perguntar ao outro polo da relação.
Seu Zeca titubeou um pouco, pigarreou um pouco mais e finalmente decidiu falar:
- Meu filho, nunca falei isso pra ninguém, mas eu odeio a ponta do pão!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O ensurdecedor som do silêncio


Estranhamente, quando acordei, naquela manhã até então comum, percebi que não conseguia mais falar. E percebi isso da forma mais trivial possível: após levantar-me da cama, enquanto me dirigia ao banheiro para as devidas abluções matinais, esbarrei naquele que é o pior inimigo das madrugadas, obstáculo que sempre se mete no meio do caminho. Não, não era uma pedra; e sim o criado-mudo. A canela foi tão fortemente danificada, que o sonoro grito de dor consequente pareceu que seria ouvido a quilômetros de distância.
No entanto, estranhamente, ele sequer saiu. O silêncio permaneceu o mesmo, ao mesmo tempo em que eu seguia minha marcha ao banheiro, ainda atordoado, na dúvida se o som havia sido abafado por mero capricho do acaso, fruto da minha imaginação, ou se, de fato, ele existira, mas não saíra.
Destino final atingido, abri o chuveiro. Às primeiras e frias gotas d’águas que me tocaram, imediatamente iniciei o assobio mental daquela que era a minha oração matinal: Geraldo Vandré. Todavia, ao chegar à parte cantada, já devidamente aquecida a água, tive a confirmação de que minha voz havia mesmo fugido de mim: não consegui sequer balbuciar o primeiro “caminhando”.
O boicote vocal, diversamente do que pode parecer, a um primeiro momento não me abalou muito. Na verdade, caiu como uma luva: era a desculpa ideal que eu buscava há tanto tempo. “Perfeito”, teria pensado com os meus botões se os houvesse naquela oportunidade – mas acabei pensando sozinho mesmo, despido de quaisquer pudores.
Continuei, então, meu dia como se nada houvesse acontecido, ainda mais aliviado pela desnecessidade de transformar uma insatisfação com o atual estado das coisas em atitudes concretas. Pra ser sincero, há tempos tinha dúvida se realmente estava indignado ou se já havia me resignado, entendendo que o mundo é assim mesmo e nunca mudará.
Agora, a dúvida era uma questão secundária, não importava tanto como outrora. Afinal, afônico, não havia como botar a boca no trombone e agir em prol de um mundo mais justo. Havia de deixar isso para os demais, enquanto eu deveria achar um jeito de me (re)encaixar neste mesmo mundo – e, principalmente, aceitar que a luta agora deveria ser uma bandeira dos demais e para todos.
“Sem voz, sem vez”. A desnecessidade de agir tornou meu dia muito mais leve, o que foi notado até mesmo pelos colegas de trabalho, que, obviamente, não se furtaram a fazer as piadinhas de praxe, odiadas e nem por isso menos fartamente repetidas em todo ambiente profissional.
“Como ele tá calado hoje!”, “Será que o gato comeu sua língua?”, “Ih, será que ele descobriu?”, “Foi bem alguma coisa ontem à noite... Ele saiu daqui tão alto astral!” eram algumas das manifestações daqueles anônimos conhecidos. Poucos permaneceram calados como eu – mas, diferentemente, para eles aquilo era uma opção, não uma imposição natural. Talvez mesmo eles não se importassem... Ao antever essa possibilidade, não me contive e deixei à mostra o meu sorriso de escárnio mais cruel e nunca previamente ensaiado, afastando ainda mais aqueles que porventura tivessem qualquer interesse na minha situação.
Passei a cumprir com minhas funções diligente, embora silenciosamente; quando parei de incomodar os colegas de trabalho ou quando encontraram outro alvo de chacota (confesso não saber o que veio primeiro), me deixaram em paz, abrindo caminho para a aproximação daqueles que representariam o começo do meu fim.
A verdade é que, naquele momento, eu estava feliz e havia aceitado facilmente o bloqueio vocal de que havia sido acometido. Não queria mudar aquela situação, desejava apenas curtir a minha vida e deixar os problemas de lado, alheios à minha realidade e ao meu cotidiano resignado.
Acontece que tentaram me convencer do contrário: quiseram me fazer ver que eu não deveria aceitar aquela situação, que eu não deveria jamais me calar e, principalmente, que eu não poderia, em hipótese alguma, me resignar. No começo, até cheguei a ignorar as investidas deles, mas, quanto mais eu me calava, mais eles tentavam. E me tentavam.
Meu silêncio nunca foi o bastante e, apesar de bem assimilado por mim, nunca foi compreendido pelos demais. Chegamos a tal ponto que tive que redigir um documento escrito destinado a eles, ilustrando situações, mostrando (falsas) razões e justificando meu silêncio nas leis da natureza.
O documento foi a gota d’água para transformar o que antes era uma mera tentativa de cooptação em ódio mortal. Não entendiam como alguém como eu podia ter perdido a voz da noite para o dia, passaram a me chamar de “traidor do movimento” e disseram que um dia eu pagaria por tudo aquilo. Como se a culpa fosse exclusivamente minha!
Tentaram me atingir violentamente de todas as formas, o que acabou sendo a última desculpa de que eu precisava para me recolher ainda mais. Encarcerei-me em mim mesmo e passei os últimos dias tentando achar a razão maior de tudo aquilo.
Quando, finalmente, achei tê-la encontrado, libertei-me de verdade e soltei um sonoro “aos diabos!”, junto com meu último suspiro.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Sábado à tarde

Segundo meu amigo, aconteceu numa tarde de sábado. Sim, porque nas tardes de sábado estamos de braços abertos pras infinitas possibilidades do final de semana, cantarolando e imaginando a trilha sonora animada, regada a petiscos e outras companhias, distraídos com a diversão futura (e sem pensar na ressaca consequente). É aí, então, que acontece.
Naquele sábado, diz meu amigo, o amigo dele estava se sentindo bem: era a sensação que só um céu azul ensolarado de uma tarde de sábado nos traz. Não havia nem mesmo resquícios de que algum dia já existiram nuvens no horizonte, o teto da cidade era todo de um azul sem igual, como se estivesse convidando para um banho de mar na Praia do Futuro. Na verdade, ele (meu amigo!) jura de pé junto que o amigo dele ouviu o sol chamando - disse inclusive qual seria a melhor barraca.
- Boooooorn to be wiiiiiild! - gritava a plenos pulmões, a janela do carro aberta, as paisagens e os outros carros ficando para trás - Get your motor running, head out on the highway. Lookin' for adventure in whatever comes our way! Uoooou, essa música deixa a gente realmente no clima.
Nada impediria a diversão daquele sábado à tarde. Já estava a caminho do sol, do mar, do encontro com os amigos e com a felicidade que a vida nos proporciona em momentos como aqueles, únicos - mas que se repetem de sete em sete dias, quando o céu permite.
Eis que (ah, as adversidades com que a vida nos brinda às vezes!) telefone tocou. Ele (o amigo do meu amigo) nunca gostou de atender telefonemas enquanto dirigia, mas naquele dia estava tão distraído, tão de bom humor, que resolveu dar uma chance àquele que resolveu se intrometer naquele momento de transbordante euforia. Na verdade, pensou mesmo que poderia contagiar um pobre necessitado de um simples lazer. Mas era apenas a sua mãe.
- Filho?
- Ahn... Oi, mãe.
- Que som é esse? Tá numa festa uma hora dessas?
- Quê?
- Abaixa esse volume!
- Peraí, mãe, que eu não tô ouvindo nada. Deixa eu abaixar aqui um pouco o som... Pronto, diga.
- Filho, você pode me fazer um favor?
Ah, o que seria das tardes de sábado sem os seus favores familiares?
- Agora?
- O mais cedo possível.
- Tá, diga.
- Você pode passar na casa da costureira, pra pegar uma encomenda pra mim?
- Posso, mãe - Que mais poderia falar? - Onde é?
- Filho, eu não sei onde é... Mas sei como chegar lá. Você faz o seguinte: vai pela rua da Lurdinha, sabe qual é?, vai nela até chegar na altura daquela churrascaria que eu ia com seu pai quando você e sua irmã eram mais novos, lembra?, chegando nela, dobra à direita, anda mais uns três quarteirões, ou são quatro?...
- Mãe...
- ... três ou quatro, não lembro, sei que você dobra à esquerda numa casa que sempre tem uma velhinha de cabelo branco na frente, acha que tá no interior, nem parece que tá tudo tão perigoso, então você passa uns três sinais...
- ... mãe...
- ... depois pega o primeiro retorno, cuidado nessa hora, tem muita batida, espera até dar certo passar...
- MÃE!
- Oi, filho?
- A senhora pode me dizer o telefone dela, que eu ligo e pego o endereço!
- Ah, tá. Anota aí: Adalgisa...
- O quê?
- Adalgisa! É o nome dela.
Depois, disse o telefone da costureira e desligou. O amigo do meu amigo não tinha onde anotar e ficou com aqueles dados na cabeça, utilizando uma tática de memorização que aprendeu quando era criança: "repetir a informação a cada cinco minutos, por três ou quatro vezes". Assim, nunca esquecera o telefone de ninguém.
Acontece que, naquele sábado à tarde, ele estava mais concentrado nas ondas do mar. E, ao abrir os olhos, ainda de manhã, botou na cabeça que nada o desviaria do seu foco: o azul do céu o dirigiria às dunas da Praia do Futuro. A solução seria, então, ir à praia e, no retorno para casa, passar na costureira. Para isso, não poderia esquecer nome nem telefone - sedimentos facilmente transportáveis pelas ondas do mar.
Ainda bem que utilizara eficazmente a técnica de memorização e conseguiu chegar à praia ainda se lembrando da Adalgisa e seu telefone. Mas, temendo o pior, mal cumprimentou seus amigos, pegou o primeiro pedaço de papel que viu na mesa e anotou as informações. Pronto, agora sim: poderia desfrutar aquele momento tão esperado desde o longínquo sábado anterior.
Uma certa altura, sol perto de se por, o arrebol estimulando os pensamentos dos corações apaixonados, as câmeras fotográficas apontadas para o horizonte, viu uma das meninas (Ísis? Bárbara?) de posse do guardanapo em que fizera as anotações. Felizmente, a mancha do excesso de batom retirado não foi suficiente para atrapalhar a leitura; parecia mais uma declaração de amor.
A turma foi das últimas a sair da praia naquele sábado à noite (sim, porque a tarde já se fora, juntamente com o sol). O amigo do meu amigo até carregou consigo o guardanapo, mas distraído, divertido, realizado, se esqueceu de passar na costureira. Seguiu direto para a casa da sua namorada, que, ao entrar no carro, até hoje não acredita que a "Adalgisa do beijinho" era só uma costureira.
Ela virou ex, e o amigo do meu amigo jura de pé junto que é tudo verdade.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Adeus


A Solleon Menezes.

Uma lágrima teima em querer cair silenciosa
Mas, mesmo sem parecer emitir qualquer som
Ela carrega em si um grito
Alto
Forte
Sufocado

A garganta apertada num nó que não desata
Luta contra um dilema existencial
Parafraseando Shakespeare
- Cair ou não cair? (eis a questão)
E nesse embate interno
Alia-se a mente à primeira opção

Fatos e fotos
Lambanças e lembranças
Detalhes e retalhos

De uma adolescência vivida
Platônicas paixões juvenis compartilhadas
Momentos e risos
Discussões e debates
Precoces e inteligentes

Vivíamos o presente
Imaginávamos o futuro
Mas infelizmente o ex-futuro
Agora presente
Tornou-se de súbito um ponto escuro

Ah, escuro, nêgo, meu amigo
Confesso, não consegui: a mente venceu
A solitária lágrima verteu
E o abafado grito saiu: adeus.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Orgulho cearense


Macho, tinha um povo, derdifarrétempo, que tinha uma cultura e uma história ricas que só, sabe? Estribada mesmo! Pra tu ter uma ideia, foi com esse povo que começou o fim da escravidão no Brasil - e viva o Dragão do Mar (Chico da Matilde) e a cidade de Redenção!
Tu já ouviu falar na Academia Brasileira de Letras? Macho, se eu te disser que a Academia de Letras desse lugar foi a primeira do Brasil, fundada três anos antes da ABL? Num acredita não? Então acho que nem vale a pena falar da Padaria Espiritual, né? Adolfo Caminha, Antônio Sales, Lívio Barreto... Pensa que são os endereços dessa tal Padaria? Macho, num é isso que tu tá pensando não! São escritores do mesmo lugar dessa cambada aí, igual um José de Alencar que veio antes deles.
Ah, e só pra continuar falando de escritores, tem também Patativa do Assaré e Rachel de Queiroz, contando aquilo que esse povo sofre tanto: a seca. Valeimeupadimciço! Domingos Olímpio e Clóvis Beviláqua, Barão de Studart e Franklin Távora...
E na televisão, então? Vixe! Tem o Renato "Didi Mocó Sonrisélpio Colesterol Novalgino Mufumbo" Aragão, o Chico Anysio (descansem em paz, Professor Raimundo e mais 200 personagens), o José Wilker e a Luiza Tomé, só pra num esticar muito esse parágrafo. Um brinde à cana brava, mas sem perder o Tom!
Como dever de casa, na hora da merenda tu vai ter que pesquisar sobre a vida dum caba que eu só vim conhecer um dia desses a história. Um caba que bebia cachaça do mesmo tanto que pintava: Chico da Silva. Macho, vai atrás, deixa de ser abestado; tu num vai se arrepender não. Ao contrário, tu vai é se orgulhar!
Orgulho... Taí! Tem como não ter orgulho dessa reca aí? Tem nada!
E olha que eu ainda não tinha falado nem do Falcão, Belchior, Fagner... E precisava? Não, né? 
Por tudo isso foi que inventaram de comemorar o dia do Ceará! E, pra cantar, chamaram quem? Adivinhou? Sim, ele mesmo:
O Alceu Valença!
Eita povo fresco! Cearense é comédia mesmo, tudo moleque. Vale nem um sibazol.