Continuous, entire, universal, long lasting.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Papo de boteco

(O diabo da garrafa, Hélio Rola)

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"É que Narciso acha feio o que não é espelho"(Caetano Veloso)

Sábado à noite. Lá estava eu, pronto para o que viesse. E, melhor ainda, preparado para quem viesse.
Não era porque eu me julgasse melhor do que ninguém, mas, bolas!, naquela noite nada iria sair do meu controle. Nunca fui metrossexual (sei nem o que isso significa, juro!) nem supersticioso, mas trajava a roupa que, até então, estava invicta. Nem demorei muito para escolhê-la; ela, na verdade, mostrou-se para mim assim que abri o armário, e, como se já estivesse comigo na mesa do bar, me desafiou com a pergunta:
- Não é hoje que você vai dar sopa pro azar, né?
Não, definitivamente não seria. Vesti-a (caiu como uma luva!) e prontamente fui para o segundo e último tempo daquele momento pré-noitada: pratiquei o que considero o "paradoxo capilar". Este consiste, resumidamente, em você demorar tempo suficiente arrumando o cabelo para dar a impressão de que você não arrumou nada. Entendeu? Prometo que isso não é complexo, se quiser ensino depois.
Depois, as derradeiras: carteira, chave do carro, telefone, odores e auto-estima juntaram-se a mim e me acompanharam até o bar de sempre, com o garçom de sempre, a bebida de sempre e a mesa variável. Mas, naquela noite especial, a sorte mais uma vez me sorriu: embora o bar estivesse apinhado de gente - como sempre -, a mesa que surgiu e se ofereceu para mim foi a mais central de todas, com nada mais, nada menos do que duas cadeiras vazias, que logo me deram a entender que seriam a minha e a dela.
Sentei-me e, enquanto as caixas de som criavam o clima perfeito, entoando Bon Jovi e seu hino Always, aguardei a chegada do grande companheiro Tobias. Este, quando rapidamente apareceu, já trouxe de bandeja uma véu de noiva e dois copos, prevendo aquilo que certamente aconteceria ao longo da noite. "Ah, grande Tobias, você me conhece bem!", e a resposta dele, também mentalmente, foi um simples sorriso.
O tira-gosto não tardou também a vir: um coração de frango para hipertenso nenhum botar defeito. Pronto, agora só faltava aquela que sentaria na cadeira ainda desocupada. Mas, do jeito que a sorte estava do meu lado, nem precisaria de muito esforço, bastaria sorrir e esperar.
Foi quando a avistei. Na hora, percebi logo que não era nenhuma Bárbara Evans, mas também não chegava a ser uma Rossicléa. A poucas mesas de distância, junto com outras amigas, vi no seu perfil a companheira ideal para o resto da noite. Estava claro que ela se entregaria fácil ao meu charme, charme que estava ali, a seu inteiro dispor, para dar à sua noite o que ela estava precisando para ser feliz. Agora, então, seria apenas sorrir. E esperar.
Longe de um tradicionalismo monogâmico e querendo iniciar um ridículo, mas necessário, joguinho amoroso, passei a flertar com todas as mulheres da redondeza, mas com os olhos vidrados naquela que havia escolhido como a vítima da noite. Não importava que as demais correspondessem à falsa paquera: na verdade, meu olhar soslaiamente desviava para a minha musa mediana.
Os goles de cerveja aumentavam, o copo esvaziava mais rápido e o tira-gosto já estava perto do fim. O Tobias começava a se impacientar, enquanto eu ia ficando inquieto com a falta de atitude da eleita. Esperava há algum tempo, sem entender o que ela queria além de mim: ainda que existisse algo a mais - o que, diga-se de passagem, é bastante improvável, para não dizer impossível -, ela não estaria à altura. Ora, ela só me tinha por mera liberalidade (por que não dizer bondade?) minha.
Meia agoniante hora se havia passado, e nada de ela corresponder aos meus olhares - que iam ficando cada vez mais diretos, à medida que as garrafas se somavam à minha frente. O coração já tinha ido todo embora, e agora eu comia, mesmo sem fome, apenas as folhas de alface que haviam restado na bandeja, fechado no meu mundo de inquietação e dúvida. Mas o pior mesmo era o risinho de escárnio do Tobias.
De repente, no entanto, uma centelha de esperança: o que antes eram olhares unilaterais passou a ser recíproco. A correspondência trouxe de volta a minha auto-estima, e os sorrisos se multiplicaram ainda mais quando, no intervalo entre um olhar e outro, eu a via trocando confidências com as amigas, apontando em minha direção. Naquele momento, eu tive a certeza de que aquela seria mesmo a minha noite.
O encontro de olhares continuou por longos minutos, que pareceram uma eternidade, e quando o Tobias, desistindo de esperar, veio em minha direção para retirar a cadeira e o copo sobressalentes (que nessa hora, ironicamente, registravam a presença de uma ilustre mosquinha, espectadora do improvável), ela pareceu adivinhar a atitude daquele garçom atrevido e a ele se antecipou:
- Com licença...
Ah, a sensação de dever cumprido. Meu sorriso involuntário certamente entregou tudo que meu silêncio ocultara.
- Não sei nem como te dizer isso...
Não precisa dizer nada, minha querida. Sente-se e, sem mais delongas, vamos ao que interessa. Você já perdeu tempo demais!
- Mas é o seguinte...
O óbvio não precisa ser dito. Vamos, vamos, vamos!
- O senhor está com um negócio verde no meio do seu dente!
Maldita! Queria era a minha mesa, aposto.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Microconto

(Água forte sobre papel, Raimundo Cela)
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Acostumado a repetir, de boa fé, jurisprudências e doutrinas nas decisões que redigia para seu chefe assinar, o assessor daquele juiz foi exonerado do cargo após sucumbir à tentação maior: passara a romancear os fatos de seus réus.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Tô cansado

(Olhos do lixo, Descartes Gadelha)

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"Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada
Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada
E eu começo a achar normal que algum boçal atire bombas na embaixada
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer...
Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada.
Toda forma de conduta se trasforma numa luta armada.
A história se repete mas a força deixa a história
mal contada...
E o fascismo é fascinante deixa a gente ignorante e fascinada
É tão fácil ir adiante e se esquecer que a coisa toda tá errada
Eu presto atenção no que eles dizem mas eles não dizem nada"
(Engenheiros do Hawaii – Toda forma de poder)

Tô cansado. Cansado dessa mesquinhez, cansado dessa briga do poder pelo mero poder, cansado dessa mesmice que faz todos os brasileiros pensarem que “político é tudo igual”.
Cansado de ver quem deveria nos proteger preocupado apenas com a “ordem” – que ordem seria essa? A que vivemos? Não seria uma desordem? A injustiça nunca vai gerar uma ordem, a não ser que a ordem seja a manutenção do status quo (e, sejamos sinceros, ô expressãozinha do meu abuso). Acho, na verdade, que a ordem é apenas a de “descer o cacete antes e não perguntar nada depois”". Afinal, diálogo não parece ser o forte desses ordeiros/ordenadores (que sonham ser ordenhadores de um rebanho pacífico e acomodado).
Tô cansado de ouvir discursos-monólogos em que é reforçada a importância dos diálogos, mas, na prática, esses são paulatina e paradoxalmente deixados de lado. Os diálogos servem apenas para os discursos, não é algo estranho?
Tô cansado da arrogância dos agentes públicos, que tratam a coisa pública como se privada fosse. E, para além da coisa pública, aquilo que é a mais pura essência do que é público: o povo.
Cansado de ver esse mesmo povo brigando como se numa intifada estivesse, armado de paus e pedras contra um adversário (que, olha só!, faz parte do mesmo povo) bem mais forte, armado até os dentes como se numa guerra estivesse. Cansado de ver as reações desproporcionais, injustificadas, desarrazoadas e humilhantes sem qualquer apuração; e, quando apuradas, sem qualquer resultado prático.
Cansado, então, de ver todos os dias uma disputa de Davi contra Golias.
Se estou cansado, isso, no entanto, é o que me dá forças para continuar. Afinal, lembro que, felizmente, na lendária história, Davi foi o vencedor.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Diálogo de elevador


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- Bom dia.
- Bom dia, senhor.
- O senhor tá no céu.
- Hein?
- O senhor... Tá no céu.
Resolvi entrar no jogo.
- Eu? Tô não, tô no elevador.
- Hein?
- Eu não estou no céu, estou no E-LE-VA-DOR.
Silêncio.
- Mas o senhor, quer dizer, você, você entendeu que...
Interrompi antes que começasse a pregação.
- Se eu tivesse te chamado de "macho", "caba véi", "senhor do 502 que chega toda noite bêbado em casa e espanca a mulher", se eu tivesse te chamado de qualquer dessas coisas, o que teria acontecido?
Plim.
Chegamos ao térreo.
- Até mais.
Sem vocativo, sem pronome de tratamento. Limpo e seco. E ele ali, estupefato.

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* Inaugurando neste espaço o que tenho visto em diversos outros blogs (mas primeiramente visto no de Dimas Macêdo), e com o claro intuito de divulgar obras de artistas plásticos (principalmente, mas não só, os cearenses), a partir de agora passo a publicar, no início de cada post, uma obra. Quando possível, remeterei a um contato com o artista; caso contrário, ao menos alguma informação básica sobre o mesmo.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O silêncio que me angustia


Ao Rafael do futuro.

Caro eu,

Esse silêncio me angustia.
Há dias, amigos, familiares, colegas e conhecido me têm perguntado se não vou escrever nada sobre essa mobilização popular recente. Não tinha pensado em falar nada, pra falar a verdade, com medo de repetir o que já tem sido exaustivamente dito por aí, mas...
Mas esse silêncio me angustia.
Lembro-me de um Rafael do passado (mais de uma década atrás), que formou a base e os princípios do Rafael do presente, participando, com mais alguns poucos amigos e mais outros gatos pingados, de passeatas e manifestações diversas. Contra ALCA, FMI, corrupção... Éramos poucos, não tínhamos tanta atenção assim, mas lutávamos. Lutávamos pelos ideais em que acreditávamos e, principalmente, por aquilo que pensávamos que seria um mundo melhor.
Pouca gente, ainda que concordasse conosco, nos acompanhava - talvez por comodismo, talvez por falta de informação, talvez mesmo por medo da repressão. Mas o importante era que fazíamos a nossa parte.
O tempo passou e a mobilização cresceu. Partiu para outro campo (de batalha não, pois você, Rafael do passado, presente e - espero - futuro, sempre foi partidário da paz e das discussões pelos argumentos), mais especificamente para as urnas. Era um movimento lindo de se ver, jovens engajados nas eleições, discussões políticas, propostas na ponta da língua de todos...
Aí veio não o arrependimento, afinal, tudo na vida é aprendizagem; mas sim a decepção. A mudança não aconteceu como deveria, a prática se distanciou da teoria, e o pensamento "será que realmente não tem jeito?" começou a povoar a cabeça desse pobre Rafael.
Agravado pelo desconhecimento de mobilizações populares que porventura ocorressem, passei a refletir. Indignado, inquieto; mas calado.
Mas, você sabe, esse silêncio me angustia.
Eis que, quando o povo mais parecia assim, sonolento, como um rebanho conduzido para o abate, chegou a hora. Não sei como o mundo está agora, no futuro, mas o importante é que "o gigante acordou" (para ficar numa frase bastante atual): gritando, se manifestando, se mobilizando. Tudo assim, pacificamente, demonstrando a indignação da juventude e da sociedade como um todo com tudo que vem destruindo o país.
E o que tem não haver uma bandeira específica? As bandeiras são várias, as insatisfações idem, e isso não deve enfraquecer, nunca, qualquer mobilização que seja. É melhor manter o povo unido, afinal, a força é bem maior. Clamando por mudanças, exigindo, gritando.
Por isso, Rafael, você não podia ficar calado. Afinal, esse silêncio sempre o angustiou.
Espero que você nunca se esqueça disso no futuro.

Assinado,
Rafael de 19/06/2013.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

sábado, 18 de maio de 2013

Identidade


Aquilo que sou
Quase sempre não é,
Necessariamente,
O que pretendo ser.

Se
A vida constrói,
Se
A vida destrói...

Você.

O importante é,
Simplesmente,
Ser.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Colecionando vidas


Desde a infância, Santiago era um viciado em colecionar coisas. Tampinhas, álbum de figurinhas, bonecos... Teve uma fase que até namoradas Santiago colecionou! Mas, pra satisfação de sua mãe (e tristeza de Santiago), essa fase não durou tanto assim. As pessoas achavam que essa história de colecionar logo passaria, mas o que aconteceu foi exatamente o contrário: as coleções foram ficando cada vez mais sérias.
Até que, ao chegar à maturidade, Santiago passou a colecionar livros. E a dita coleção passou a ser séria. Catalogada, organizada em estantes por categorias, as categorias por subcategorias, as subcategorias por autores em ordem alfabética. E tornou-se permanente.
Santiago nunca mais se desfez da sua coleção de livros - ao contrário, encarregou-se de aumentá-la diariamente, indo todo santo dia à livraria que havia perto de sua casa. E não fez tanta diferença assim quando a livraria fechou: Santiago achou outra para substitui-la. O importante mesmo era comprar mais e mais livros.
Minto: na verdade, o importante não era só comprá-los, pois Santiago impunha-se como obrigação ler todos os livros que adquiria. Não queria só ter, queria ler. Então, o que parecia ser algo saudável (afinal, ler nunca é demais), passou a ser obsessão. Santiago obrigou-se a todo dia comprar novos livros, só sossegando quando os terminava. A vida resumiu-se a adquirir os livros e lê-los, em um círculo vicioso que inibiu a sua vida social e profissional.
Acontece que aquilo que para os outros era obsessão, para Santiago era uma simples rotina. Lia desde Platão e Aristóteles a Danielle Steel, passando por Machado de Assis, Shakespeare, Alexandre Dumas e, mesmo, Paulo Coelho. Todo dia, o dia todo, comprava um livro e lia algo novo. Montou uma biblioteca exageradamente grande, de fazer inveja mesmo à de Alexandria, organizadamente catalogada.
Até o dia em que sua coleção se completou.
Isso mesmo, não tinha nenhum livro que Santiago não tivesse já comprado. Assim, não lhe restou outra saída: foi encontrado três dias depois, pendurado no último degrau da escada de sua biblioteca. Em uma folha, no bolso de seu casaco, havia apenas uma palavra: fim.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Encontros & desencontros


Foi bem ali, na esquina de algum tempo atrás
Do alto dos meus quinze anos
Que pela primeira vez te avistei
E a tua lembrança que me vem à mente
Não sei se me mente:
Será que sonhei?

Aquela imagem que não se esfaz
Vestida de verde, provocando danos
Invadiu meu corpo, minha alma e meu ser
Passeou no meu passado e meu presente moldou.
Uma brisa violenta que me derrubou
E alimentou um coração que sequer sabia ter.

Em que espaço-tempo escondes teus sinais?
Foste da minha razão meros enganos
Ou do meu coração simples criação
Para ocupar o lugar que o nada preenchia
No tempo em que o nada ainda havia
E se confundia com a emoção?

Sei que desde aquele dia não te acho mais
Penso que foste obra dos anjos
Que te fizeram com tais arranjos
Bem ali, num tempo jamais.