Continuous, entire, universal, long lasting.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Passagens - I

(Aldemir Martins, O Palhaço)
----
Primeira viagem para o exterior a gente nunca esquece. E o primeiro destino, em um mochilão por treze países diferentes, a gente sempre lembra com um carinho ainda mais especial. É assim, então, que Madri aparece na minha memória.
Quase seis meses longe daquela que me atura até hoje, guardo todas as cenas daquela cidade na minha cabeça: o reencontro em Barajas (depois de horas de ansiedade, mais agravadas ainda pelos voos perdidos em Lisboa), o transporte de malas pelo metrô, as caminhadas procurando o albergue. O elevador old school, o quarto digno de um três estrelas no Brasil, a recepção por uma marcha gay que passou em frente ao albergue assim que a porta foi aberta. Os pontos turísticos. Os kebabs. Os McDonalds, Burger King e cafés a cada quarteirão.
Mas o que mais me marcou foi um acontecimento trivial. Bobo, até.
Viajando, o senso de liberdade havia se aguçado. Em mim, isso se expressava em uma vontade líquida: um copo de cerveja no meio da rua, no meio do nada.
Um copo, não; poderia ser uma caneca de chope ou uma long neck. A única condição era que fosse apreciada enquanto eu caminhava pelas ruas, como se nada mais fosse me deter. E, a cada passo dado, a vontade crescia mais e mais. Até o ponto de virar desejo.
Ela, do alto da sua experiência quase semestral naquele habitat, decidiu me alertar:
- Olha, cuidado. Tem canto aqui que é proibido beber no meio da rua.
Cego pelo meu desejo, fui a uma mercearia, chamei o vendedor e, no meu portunhol aprendido em três anos na casa de cultura hispânica, indiamente perguntei:
- Hola. Cerveza?
Enquanto ele me passava a garrafa e o preço, me lembrei de dar ouvidos ao alerta feito por ela. Afinal, não queria, no primeiro dia, ter complicações legais no estrangeiro.
- Señor... Puedo beber encuanto camino?
A cara de surpresa do vendedor, como se aquela pergunta fosse a mais absurda do mundo, me deu um indício da resposta que viria.
- Claro que sí!
Alívio. Abri a garrafa e, antes mesmo de terminar o tsss, ele deu o arremate que me marcou até hoje:
- Sí, se puede tomar. Pero, si la polícia lo vé, pagará una multa.
...

Com esse raciocínio, aprendi: sim, posso fazer qualquer coisa. Se for errada, só não posso ser descoberto.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

TEXTO ANTIGO - Conto de Natal I

(Raimundo Cela, Duas épocas)

----

É Natal. Todos festejam. Não sei qual é a causa de tanta festa. Já comemorei o nascimento de Cristo outrora, mas agora não tenho motivos suficientes para tanto. Afinal, minha vida resumiu-se a ver o sol nascer quadrado todos os dias depois de um acontecimento.
Há cinco anos, minha vida estava razoável. Morava em um barraco, no Morro da Mangueira. Constituía família, com cinco filhos nela (um deles estava com câncer). Eu saía, trabalhava, vivia feliz e conseguia dormir. Até a chegada do fatídico Natal de 1995.
Meu filho doente pediu-me um rádio de presente. Mesmo sem dinheiro, não consegui recusar. A vida dele já era tão sofrida! A recusa de um simples rádio o faria ficar mais deprimido ainda.
Saí, procurando um rádio barato. Mas todos custavam mais do que eu podia pagar.
Tentei fazer algumas horas extras no meu trabalho, a fim de que pudesse arrecadar mais dinheiro para pagar o rádio, mas mesmo assim ainda não dava. Entrei em desespero.
Surgiu-me a péssima idéia de roubar. Se não fosse por ela, hoje estaria comemorando o Natal em casa, com a minha família. Mas o que um pai não faz por um filho? Ainda mais por um com doença tão grave!
Enquanto corria, deixei-me levar pelo pensamento e fiquei imaginando a satisfação do meu filho ao receber o tão esperado presente. Pensei tão fixamente a ponto de não ter visto a aproximação dos policiais. Lutei, mas foi em vão. Quando percebi, já estava algemado. Levaram-me preso.
Tentei explicar ao delegado a minha situação, na esperança de que o espírito natalino o fizesse ter compaixão alguma vez na vida. Mas ele disse todas as histórias de policiais, que a lei tem que ser cumprida, roubar não é justo... Enquanto ele falava, pensei: “mais vale um rádio do que a felicidade de uma criança? Essa sociedade está errada!”.
No primeiro ano, minha família ainda me fazia visitas. Mas, agora, todos ficam em casa. Até acho que minha mulher conseguiu outro marido, mas rico, que consegue pagar tudo para ela e satisfazer meus filhos. Será que eles não entendem que roubei pela felicidade da família?

Então, feliz Natal. Para você, pois não tenho motivos nem força para tal comemoração.

----

Garimpando, meus pais acharam esse texto meu, escrito no ano de 2000, para participar de um concurso literário. Sem qualquer juízo de valor, publico-o aqui, para leitura de todos. Não sei se vocês gostarão, mas eu me diverti bastante resgatando essa parte da minha história.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O objeto do estudo x o estudo do objeto (análise de Nilto Maciel a "Tardios Manuscritos Juvenis")

Cinco horas de lubricidade (Nilto Maciel)


Ando, de novo, sem tempo para leituras demoradas. Acicatam-me as têmporas dois projetos faraônicos: um romance (o personagem central é Antonho Mendes, devotado há anos a inventar histórias sertanejas na terra do futuro Antônio Conselheiro) e um ensaio (a história recente da literatura cearense, a partir de 1970).


        Em razão dessa minha entrega total aos dois edifícios (tenho dormido, no máximo, quatro horas, a cada volta da Terra sobre si), pedi ajuda a Cleto Milani: “Se minha dedicação a um opúsculo demorar uma hora, a sua deve durar duas. Em uma hora de conversa, rabiscaremos uma resenha”.

Dei início a esta nova fase de leituras/comentários, com cinco coletâneas recebidas em outubro passado: Dueto para sopro e corda, 2ª edição (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2013), de Jorge Tufic; Nação Poesia – Antologia poética (Florianópolis: Edições A Ilha, 2011) e Borboletas nos Jacatirões (Blumenau: Hemisfério Sul, 2007), de Luiz Carlos Amorim; O Clube dos Feios & outras histórias extraordinárias, 2ª edição (Rio de Janeiro: 7Letras, 2013), de Carlos Trigueiro; e Tardios manuscritos juvenis (Fortaleza: Vocabulário UM Editora, 2011), de Rafael Caneca.

Se me não engano, conheci a primeira edição do Dueto, pois sou devoto de Tufic há milhares de anos. Afundei-me nos contos de Trigueiro também ainda na primeira leva e cheguei a comentá-los. Como não costumo me enganar, não aceito ser enganado. Agarrei o celular e achei Cleto: “Como anda sua oficina?” “Excessivamente bem, doutor. Estou com três alunas maravilhosas...” Como fosse iniciar formidável mentira, mudei de assunto, bruscamente: “Você já examinou alguma destas publicações?” E citei, uma a uma, as cinco mencionadas no início desta crônica. “Não faço ideia das obras e, menos ainda, dos autores. São bons? Você recomenda a leitura delas?” Num piscar d’olhos, bateu ao meu portão. Conversamos por dez minutos, tomamos café (Alice, a minha, aparentava ter amanhecido com veia boa) e lhe passei o pacote. “Volte quando conseguir desvendar tudo”. Ele me obedece cegamente.

Não demorou três dias, bateu à minha porta. “Alice, vá receber o nosso ancião. Porém, tenha muito cuidado com a mão direita dele”. Riu, saiu, a serpentear, pelo corredor, e voltou, mãos dadas com o sátiro do Benfica. Ela se enfiou na cozinha; ele, com sorriso de libertino, devolveu-me os impressos e pousou no sofá. Quase não abri o bico. E o devasso, sem concorrente, demonstrou o quanto sabe tagarelar:

O Dueto para sopro e corda, de Jorge Tufic, é dividido em duas partes: sonetos e poemas. Ora, Nilto, sonetos também são poemas”. Fiz ouvidos de mercador. “O velho sabe sonetar, quer com rima, quer sem ela. E isto o torna bom poeta”. Completei: “Também”. Como se não desse importância a mim, o visitante voltou à análise: “Alguns sonetos não têm divisão estrófica, sem justificativa, pois todas as estrofes teriam ponto no final do último verso”. Tomei-lhe a palavra: “Uma das características da poesia de Tufic nesse inventário é a homenagem a poetas brasileiros e estrangeiros. E isto o torna mais encantador”. Com a intenção de me espicaçar, Milani quis saber se havia homenagem a mim, na coleção. Não vi; isto, no entanto, não o torna menor aos meus olhos. Pois, quem modela versos como estes, não pode ser pequeno ou médio; é grande: “O poeta é um barco / por ele mesmo / desnavegado. / Se acontece haver porto, / outros portos flutuam / de atlântidas / submersas”.

Chegado o momento de Luiz Carlos Amorim, entreguei ao vetusto habitante do Benfica os dois volumes: “Solte o verbo, meu amigo”. E ele me atendeu: “Em Nação Poesia: Antologia poética, a poesia beira a ingenuidade. Tanto no modo de expor os conceitos (próximo do coloquial), como nos assuntos tratados”. E soletrou uns versos: “No meio da madrugada, agarro com tanta ânsia / as asas brancas de um sonho”.  Passamos ao segundo tomo: “Impliquei com o título; nunca li nem escutei o vocábulo jacatirões”. Recriminei-o: “Isso não tem importância. Por que você não centra sua análise na prosa do poeta? Você viu como a crônica ‘Meu pé de jacatirão e as borboletas de Quintana’ é recheada de poesia? Vamos reler um trecho? ‘É manhã de domingo e o dia está triste, cinzento. O sol não saiu. Abro a janela e vejo meu pé de jacatirão com suas flores vermelhas, brancas e dessas duas cores misturadas, muito vivo’”. Cleto me cutucou, como se houvesse alguém na sala, além de nós: “A última frase me parece incompleta; falta-lhe um verbo, talvez”. Fiz o papel de embromador: “O estilo de Amorim deve ser este”.  

Dei total liberdade ao meu convidado: “Critique à vontade esse excepcional Carlos Trigueiro”. Pôs-se a passear pel’O Clube dos Feios: “Você tem razão: os assuntos tratados pelo contista fogem completamente ao trivial da literatura brasileira. A começar pelo primeiro conto, o do clube dos feios”. Analisou cada uma das peças e assim concluiu o comentário: “Trigueiro narra com a intenção de entreter o leitor. Em vista disso, o dialeto literário utilizado é o mais comum possível. Até criança na primeira fase do aprendizado escolar gostará das histórias extraordinárias desse amazonense singular. Nenhum malabarismo verbal, nada de vocábulos do outro mundo, mesmo quando se refere a ‘hunos de clavas estruturalistas’ ou a ‘contabescer é o destino do homem’”. Interrompi-o. Precisávamos correr. A secretária do oftalmologista me telefonara cedo: “Seu Nilto, não se esqueça da consulta, hoje, às 17 horas”.

Observei o relógio: “Dedique trinta minutos a analisar os contos do jovem Caneca”. Agarrou os Tardios manuscritos juvenis e iniciou a tagarelice: “Uma das particularidades da dicção de Rafael é a uniformidade. Ele nunca se excede, nunca se desvia do caminho traçado. O ledor não é levado a surpresas ou mistérios. Não há atrevimentos inesperados dos narradores, apesar de um deles chasquear de quem usa clichês”. Eu me embasbacava. Como pode um crítico ser tão corrosivo? Ao contrário de Milani, vejo no jovem escritor a melhor das intenções: a de contar histórias curtas, do cotidiano dos brasileiros, sem a pretensão de demonstrar eruditismo ou de experimentar linguagens de difícil entendimento. Ele não revela tudo, deixa por conta do leitor o preenchimento das lacunas, das entrelinhas. Exemplo disso está na primeira história (“Pulse”): o protagonista (apresentado por voz onisciente), apesar de ser cidadão normal, que ouve música, trabalha, bebe cerveja, se mostra como pessoa solitária em crise. E qual seria essa crise? Nem se sabe a idade do rapaz. Ou se mora só, se tem namorada, onde trabalha, se ainda estuda.

Mirei outra vez o relógio e anunciei necessidade de me retirar e encarar o oftalmologista. Milani me sondou, da cabeça aos pés, com desconfiança: “Ou irá espiar o mundo de Cecília?”

Fortaleza, 2/4 de novembro de 2013.

----

Para saber mais sobre Nilto Maciel, o autor da análise: http://www.niltomaciel.net.br/

A emoção não me deixa tecer comentários agora. :)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

EducAção

(Queimada na floresta, Inimá de Paula)
----

Vindo ao trabalho hoje, num intervalo de menos de dez segundos, vi um ser furar o sinal vermelho e jogar papel no chão. Assim, desse jeito mesmo, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Foi assim, oh:
6:50 da manhã, eu tava indo de casa pro trabalho, quando o sinal, aberto para mim, fica amarelo. Enquanto eu freio calmamente, com o sinal ainda amarelo (tudo isso dura frações de segundos), vejo que na transversal tem um carro em cima da faixa de pedestres, acelerando como se estivesse na linha de partida de alguma corrida muito importante. Ao ver que eu parei, o carro arranca, dobrando a esquina, e estaciona logo adiante. Quando sai, o piloto motorista joga um papel no chão e passa a caminhar calmamente pela calçada.
Pronto, foi isso.
Não sei porque esse acontecimento me fez pensar... Afinal, não é tão normal as pessoas furarem sinais e jogarem papel no chão? É. Infelizmente.
Por que as pessoas são assim? Quem são elas? O que elas comem? Descubra mais tarde, no Globo Repórter. Não vou cair aqui no reducionismo (e na besteira) de dizer que "é coisa de pobre", "é coisa de brasileiro", "a culpa é do governo", "abaixo o capitalismo" e outras generalizações abstratas. A questão é o egoísmo de todos nós, decorrente da falta de educação num mundo cada vez mais individualista.
"Ah, mas não vou atrapalhar ninguém passando esse sinal", "que mal tem jogar esse papelzinho no chão?" presumo que sejam alguns dos pensamentos dessas pessoas. Sim, você vai atrapalhar! Sim, faz mal jogar papel no chão!
Ia continuar minha análise pseudoantroposociofilosófica, mas tive que interrompê-la ao ouvir uma sinfonia de buzinas atrás de mim:
- Pô, pessoal, são só cinco segundos pro meu filho descer!
Ê raça...

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Papo de boteco

(O diabo da garrafa, Hélio Rola)

----


"É que Narciso acha feio o que não é espelho"(Caetano Veloso)

Sábado à noite. Lá estava eu, pronto para o que viesse. E, melhor ainda, preparado para quem viesse.
Não era porque eu me julgasse melhor do que ninguém, mas, bolas!, naquela noite nada iria sair do meu controle. Nunca fui metrossexual (sei nem o que isso significa, juro!) nem supersticioso, mas trajava a roupa que, até então, estava invicta. Nem demorei muito para escolhê-la; ela, na verdade, mostrou-se para mim assim que abri o armário, e, como se já estivesse comigo na mesa do bar, me desafiou com a pergunta:
- Não é hoje que você vai dar sopa pro azar, né?
Não, definitivamente não seria. Vesti-a (caiu como uma luva!) e prontamente fui para o segundo e último tempo daquele momento pré-noitada: pratiquei o que considero o "paradoxo capilar". Este consiste, resumidamente, em você demorar tempo suficiente arrumando o cabelo para dar a impressão de que você não arrumou nada. Entendeu? Prometo que isso não é complexo, se quiser ensino depois.
Depois, as derradeiras: carteira, chave do carro, telefone, odores e auto-estima juntaram-se a mim e me acompanharam até o bar de sempre, com o garçom de sempre, a bebida de sempre e a mesa variável. Mas, naquela noite especial, a sorte mais uma vez me sorriu: embora o bar estivesse apinhado de gente - como sempre -, a mesa que surgiu e se ofereceu para mim foi a mais central de todas, com nada mais, nada menos do que duas cadeiras vazias, que logo me deram a entender que seriam a minha e a dela.
Sentei-me e, enquanto as caixas de som criavam o clima perfeito, entoando Bon Jovi e seu hino Always, aguardei a chegada do grande companheiro Tobias. Este, quando rapidamente apareceu, já trouxe de bandeja uma véu de noiva e dois copos, prevendo aquilo que certamente aconteceria ao longo da noite. "Ah, grande Tobias, você me conhece bem!", e a resposta dele, também mentalmente, foi um simples sorriso.
O tira-gosto não tardou também a vir: um coração de frango para hipertenso nenhum botar defeito. Pronto, agora só faltava aquela que sentaria na cadeira ainda desocupada. Mas, do jeito que a sorte estava do meu lado, nem precisaria de muito esforço, bastaria sorrir e esperar.
Foi quando a avistei. Na hora, percebi logo que não era nenhuma Bárbara Evans, mas também não chegava a ser uma Rossicléa. A poucas mesas de distância, junto com outras amigas, vi no seu perfil a companheira ideal para o resto da noite. Estava claro que ela se entregaria fácil ao meu charme, charme que estava ali, a seu inteiro dispor, para dar à sua noite o que ela estava precisando para ser feliz. Agora, então, seria apenas sorrir. E esperar.
Longe de um tradicionalismo monogâmico e querendo iniciar um ridículo, mas necessário, joguinho amoroso, passei a flertar com todas as mulheres da redondeza, mas com os olhos vidrados naquela que havia escolhido como a vítima da noite. Não importava que as demais correspondessem à falsa paquera: na verdade, meu olhar soslaiamente desviava para a minha musa mediana.
Os goles de cerveja aumentavam, o copo esvaziava mais rápido e o tira-gosto já estava perto do fim. O Tobias começava a se impacientar, enquanto eu ia ficando inquieto com a falta de atitude da eleita. Esperava há algum tempo, sem entender o que ela queria além de mim: ainda que existisse algo a mais - o que, diga-se de passagem, é bastante improvável, para não dizer impossível -, ela não estaria à altura. Ora, ela só me tinha por mera liberalidade (por que não dizer bondade?) minha.
Meia agoniante hora se havia passado, e nada de ela corresponder aos meus olhares - que iam ficando cada vez mais diretos, à medida que as garrafas se somavam à minha frente. O coração já tinha ido todo embora, e agora eu comia, mesmo sem fome, apenas as folhas de alface que haviam restado na bandeja, fechado no meu mundo de inquietação e dúvida. Mas o pior mesmo era o risinho de escárnio do Tobias.
De repente, no entanto, uma centelha de esperança: o que antes eram olhares unilaterais passou a ser recíproco. A correspondência trouxe de volta a minha auto-estima, e os sorrisos se multiplicaram ainda mais quando, no intervalo entre um olhar e outro, eu a via trocando confidências com as amigas, apontando em minha direção. Naquele momento, eu tive a certeza de que aquela seria mesmo a minha noite.
O encontro de olhares continuou por longos minutos, que pareceram uma eternidade, e quando o Tobias, desistindo de esperar, veio em minha direção para retirar a cadeira e o copo sobressalentes (que nessa hora, ironicamente, registravam a presença de uma ilustre mosquinha, espectadora do improvável), ela pareceu adivinhar a atitude daquele garçom atrevido e a ele se antecipou:
- Com licença...
Ah, a sensação de dever cumprido. Meu sorriso involuntário certamente entregou tudo que meu silêncio ocultara.
- Não sei nem como te dizer isso...
Não precisa dizer nada, minha querida. Sente-se e, sem mais delongas, vamos ao que interessa. Você já perdeu tempo demais!
- Mas é o seguinte...
O óbvio não precisa ser dito. Vamos, vamos, vamos!
- O senhor está com um negócio verde no meio do seu dente!
Maldita! Queria era a minha mesa, aposto.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Microconto

(Água forte sobre papel, Raimundo Cela)
----
Acostumado a repetir, de boa fé, jurisprudências e doutrinas nas decisões que redigia para seu chefe assinar, o assessor daquele juiz foi exonerado do cargo após sucumbir à tentação maior: passara a romancear os fatos de seus réus.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Tô cansado

(Olhos do lixo, Descartes Gadelha)

----

"Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada
Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada
E eu começo a achar normal que algum boçal atire bombas na embaixada
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer...
Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada.
Toda forma de conduta se trasforma numa luta armada.
A história se repete mas a força deixa a história
mal contada...
E o fascismo é fascinante deixa a gente ignorante e fascinada
É tão fácil ir adiante e se esquecer que a coisa toda tá errada
Eu presto atenção no que eles dizem mas eles não dizem nada"
(Engenheiros do Hawaii – Toda forma de poder)

Tô cansado. Cansado dessa mesquinhez, cansado dessa briga do poder pelo mero poder, cansado dessa mesmice que faz todos os brasileiros pensarem que “político é tudo igual”.
Cansado de ver quem deveria nos proteger preocupado apenas com a “ordem” – que ordem seria essa? A que vivemos? Não seria uma desordem? A injustiça nunca vai gerar uma ordem, a não ser que a ordem seja a manutenção do status quo (e, sejamos sinceros, ô expressãozinha do meu abuso). Acho, na verdade, que a ordem é apenas a de “descer o cacete antes e não perguntar nada depois”". Afinal, diálogo não parece ser o forte desses ordeiros/ordenadores (que sonham ser ordenhadores de um rebanho pacífico e acomodado).
Tô cansado de ouvir discursos-monólogos em que é reforçada a importância dos diálogos, mas, na prática, esses são paulatina e paradoxalmente deixados de lado. Os diálogos servem apenas para os discursos, não é algo estranho?
Tô cansado da arrogância dos agentes públicos, que tratam a coisa pública como se privada fosse. E, para além da coisa pública, aquilo que é a mais pura essência do que é público: o povo.
Cansado de ver esse mesmo povo brigando como se numa intifada estivesse, armado de paus e pedras contra um adversário (que, olha só!, faz parte do mesmo povo) bem mais forte, armado até os dentes como se numa guerra estivesse. Cansado de ver as reações desproporcionais, injustificadas, desarrazoadas e humilhantes sem qualquer apuração; e, quando apuradas, sem qualquer resultado prático.
Cansado, então, de ver todos os dias uma disputa de Davi contra Golias.
Se estou cansado, isso, no entanto, é o que me dá forças para continuar. Afinal, lembro que, felizmente, na lendária história, Davi foi o vencedor.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Diálogo de elevador


----

- Bom dia.
- Bom dia, senhor.
- O senhor tá no céu.
- Hein?
- O senhor... Tá no céu.
Resolvi entrar no jogo.
- Eu? Tô não, tô no elevador.
- Hein?
- Eu não estou no céu, estou no E-LE-VA-DOR.
Silêncio.
- Mas o senhor, quer dizer, você, você entendeu que...
Interrompi antes que começasse a pregação.
- Se eu tivesse te chamado de "macho", "caba véi", "senhor do 502 que chega toda noite bêbado em casa e espanca a mulher", se eu tivesse te chamado de qualquer dessas coisas, o que teria acontecido?
Plim.
Chegamos ao térreo.
- Até mais.
Sem vocativo, sem pronome de tratamento. Limpo e seco. E ele ali, estupefato.

----

* Inaugurando neste espaço o que tenho visto em diversos outros blogs (mas primeiramente visto no de Dimas Macêdo), e com o claro intuito de divulgar obras de artistas plásticos (principalmente, mas não só, os cearenses), a partir de agora passo a publicar, no início de cada post, uma obra. Quando possível, remeterei a um contato com o artista; caso contrário, ao menos alguma informação básica sobre o mesmo.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O silêncio que me angustia


Ao Rafael do futuro.

Caro eu,

Esse silêncio me angustia.
Há dias, amigos, familiares, colegas e conhecido me têm perguntado se não vou escrever nada sobre essa mobilização popular recente. Não tinha pensado em falar nada, pra falar a verdade, com medo de repetir o que já tem sido exaustivamente dito por aí, mas...
Mas esse silêncio me angustia.
Lembro-me de um Rafael do passado (mais de uma década atrás), que formou a base e os princípios do Rafael do presente, participando, com mais alguns poucos amigos e mais outros gatos pingados, de passeatas e manifestações diversas. Contra ALCA, FMI, corrupção... Éramos poucos, não tínhamos tanta atenção assim, mas lutávamos. Lutávamos pelos ideais em que acreditávamos e, principalmente, por aquilo que pensávamos que seria um mundo melhor.
Pouca gente, ainda que concordasse conosco, nos acompanhava - talvez por comodismo, talvez por falta de informação, talvez mesmo por medo da repressão. Mas o importante era que fazíamos a nossa parte.
O tempo passou e a mobilização cresceu. Partiu para outro campo (de batalha não, pois você, Rafael do passado, presente e - espero - futuro, sempre foi partidário da paz e das discussões pelos argumentos), mais especificamente para as urnas. Era um movimento lindo de se ver, jovens engajados nas eleições, discussões políticas, propostas na ponta da língua de todos...
Aí veio não o arrependimento, afinal, tudo na vida é aprendizagem; mas sim a decepção. A mudança não aconteceu como deveria, a prática se distanciou da teoria, e o pensamento "será que realmente não tem jeito?" começou a povoar a cabeça desse pobre Rafael.
Agravado pelo desconhecimento de mobilizações populares que porventura ocorressem, passei a refletir. Indignado, inquieto; mas calado.
Mas, você sabe, esse silêncio me angustia.
Eis que, quando o povo mais parecia assim, sonolento, como um rebanho conduzido para o abate, chegou a hora. Não sei como o mundo está agora, no futuro, mas o importante é que "o gigante acordou" (para ficar numa frase bastante atual): gritando, se manifestando, se mobilizando. Tudo assim, pacificamente, demonstrando a indignação da juventude e da sociedade como um todo com tudo que vem destruindo o país.
E o que tem não haver uma bandeira específica? As bandeiras são várias, as insatisfações idem, e isso não deve enfraquecer, nunca, qualquer mobilização que seja. É melhor manter o povo unido, afinal, a força é bem maior. Clamando por mudanças, exigindo, gritando.
Por isso, Rafael, você não podia ficar calado. Afinal, esse silêncio sempre o angustiou.
Espero que você nunca se esqueça disso no futuro.

Assinado,
Rafael de 19/06/2013.

sexta-feira, 31 de maio de 2013