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terça-feira, 12 de março de 2013

Só Chico

Seu nome era Chico, nada além disso. Só Chico. Tinha gente que, pra frescar com a cara dele, chamava de "Só Chico". Não sei se para evitar brigas bestas ou por não entender mesmo, ele atendia e muitas vezes ainda corrigia:
- Só Chico, não. Chico. O só é só quando perguntam meu sobrenome, eu num tenho não.
Solitário, Chico cresceu na rua. Ou melhor, no que havia dela naquele tempo. Era só areia e, de vez em quando, um matinho seco. Vivia do que lhe davam os menos lascados (o que não era lá grande vantagem) e aprendia o que se lhe oferecia de mão beijada. Não sabia o que era brincar, pois a vida não lhe permitia momentos de diversão.
Mas, ainda que não pensasse em se divertir, as necessidades do corpo de Chico acabaram por aparecer um dia. E, solitário como era, ele acabou se engraçando com a primeira que lhe deu atenção: a jumenta Providença, que ficava no sítio do Seu Tonico. Chico, na verdade, não entendia nem o que tava acontecendo. Só sabia que tinha que ficar cada vez mais perto da Providença, e sempre se aproximando mais.
Daí até consumar o fato foi um pulo.
Fonte de alívio diário, o relacionamento começou a se tornar sólido. Chico não gostava nem de ver quando os vaqueiros do Seu Tonico montavam na sua Providença, mas tinha que entender: afinal, era trabalho.
E Chico, que antes era conhecido como "Só Chico", passou a ser, por mais de cinco anos, o "Chico da Providença".
O problema veio quando o Tonico descobriu - tal qual o corno, foi o último a saber. Armou-se um escarcéu na cidade, e o delegado teve que tomar uma atitude. A saída, para tranquilizar Tonico, foi prender o Chico e enquadrá-lo na lei dos crimes ambientais, por maus tratos contra animal. Na verdade, o delegado devia favores a Tonico e, se pudesse, teria enquadrado Chico em estupro contra vulnerável.
Dizem que hoje em dia se vê por aí, nos cantos, cabeça baixa, sempre aguardando um carinho e o tratamento que nunca teve na vida. Quem? Ora, a jumenta Providença.

2 comentários:

Nazaré Fraga disse...

Eita Rafael, arrasou. Gostei muito. O final, então!

Rafael Caneca disse...

'Brigado, Nazaré!
Sempre preferi esses textos mais curtos mesmo, hehe :)