Continuous, entire, universal, long lasting.

terça-feira, 12 de março de 2013

Só Chico

Seu nome era Chico, nada além disso. Só Chico. Tinha gente que, pra frescar com a cara dele, chamava de "Só Chico". Não sei se para evitar brigas bestas ou por não entender mesmo, ele atendia e muitas vezes ainda corrigia:
- Só Chico, não. Chico. O só é só quando perguntam meu sobrenome, eu num tenho não.
Solitário, Chico cresceu na rua. Ou melhor, no que havia dela naquele tempo. Era só areia e, de vez em quando, um matinho seco. Vivia do que lhe davam os menos lascados (o que não era lá grande vantagem) e aprendia o que se lhe oferecia de mão beijada. Não sabia o que era brincar, pois a vida não lhe permitia momentos de diversão.
Mas, ainda que não pensasse em se divertir, as necessidades do corpo de Chico acabaram por aparecer um dia. E, solitário como era, ele acabou se engraçando com a primeira que lhe deu atenção: a jumenta Providença, que ficava no sítio do Seu Tonico. Chico, na verdade, não entendia nem o que tava acontecendo. Só sabia que tinha que ficar cada vez mais perto da Providença, e sempre se aproximando mais.
Daí até consumar o fato foi um pulo.
Fonte de alívio diário, o relacionamento começou a se tornar sólido. Chico não gostava nem de ver quando os vaqueiros do Seu Tonico montavam na sua Providença, mas tinha que entender: afinal, era trabalho.
E Chico, que antes era conhecido como "Só Chico", passou a ser, por mais de cinco anos, o "Chico da Providença".
O problema veio quando o Tonico descobriu - tal qual o corno, foi o último a saber. Armou-se um escarcéu na cidade, e o delegado teve que tomar uma atitude. A saída, para tranquilizar Tonico, foi prender o Chico e enquadrá-lo na lei dos crimes ambientais, por maus tratos contra animal. Na verdade, o delegado devia favores a Tonico e, se pudesse, teria enquadrado Chico em estupro contra vulnerável.
Dizem que hoje em dia se vê por aí, nos cantos, cabeça baixa, sempre aguardando um carinho e o tratamento que nunca teve na vida. Quem? Ora, a jumenta Providença.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Felicidade conjugal


Seu Zeca e Dona Maria formavam um belo casal - talvez o mais longo que eu já tenha conhecido na minha vida. Aliás, tudo relacionado à vida de ambos foi bastante duradoura. Conta-se inclusive que, certa vez, Dona Maria, triste com o passamento daquele que fora seu companheiro por mais de oitenta anos, disse que Seu Zeca partira por problema renal. E completou: "essa nossa família tem esse rim assim, fraco". 
Adotei ambos como meus terceiros avôs (ou, antes: eles me adotaram como mais um neto) e, quando criança, meu maior orgulho era espalhar que eles eram vizinhos de uma das maiores personagens vivas do Ceará: o Seu Lunga - ah, a simplicidade infantil. Confesso: inventava para os meus coleguinhas, para melhor passar, que, sempre que os visitava, me encontrava com o Seu Lunga, seja na calçada, seja mesmo na loja do Seu Zeca. E, naquela tenra idade, isso era suficiente para me render atenção e fama.
O tempo passou e o meu orgulho deles, hoje em dia, mudou a sua origem: decorre dos seus ensinamentos (e não foram poucos). A maioria deles ligada à felicidade conjugal.
Uma dessas lições me foi repassada em pessoa pelo próprio Seu Zeca. O dia, como costumava ser, era domingo. A família estava toda reunida, a mesa posta e o São Geraldo (de vidro, claro!) despejava nos copos. Enquanto as conversas e as risadas corriam solta ao redor da mesa, as esposas serviam os pratos de seus respectivos. Ao presenciar aquela cena, Seu Zeca disparou:
- Nunca!
As vozes silenciaram, apenas uma risadinha tímida quis cortar a bola de feno que atravessou a sala de jantar após o brado de Seu Zeca, logo interrompida pela sua fala firme:
- Nesses anos todos, nunca deixei a Maria fazer meu prato.
Um gentleman? Um cavalheiro de primeira classe que se revelava assim, tão de repente?
Um de seus filhos, surpreso, comentou:
- Que bonito, pai!
- Bonito, nada! - veio a resposta. Vai que eu me acostumo, um dia ela briga comigo e eu fico sem comer?
O maior dos ensinamentos, no entanto, eu lamento não haver presenciado. Assim, não sei se o repasso da forma como ocorrido o fato, mas o importante é que foi assim que o absorvi, passando a, desde então, carregá-lo comigo diariamente.
Alguém, um dia, tendo Seu Zeca e Dona Maria como baluartes de um matrimônio feliz e duradouro, quis saber o segredo de um bom casamento. Conversou isoladamente com a Dona Maria e, em resposta, obteve a declaração:
- Meu filho, vou lhe contar um segredo: sabe, eu adoro a pontinha do pão, mas sempre dou pro Zeca comer...
Ele fez cara de que tinha entendido, mas, na verdade, não entendera nada. O tempo passou e a tal pessoa, ainda com a pulga atrás da orelha, resolveu perguntar ao outro polo da relação.
Seu Zeca titubeou um pouco, pigarreou um pouco mais e finalmente decidiu falar:
- Meu filho, nunca falei isso pra ninguém, mas eu odeio a ponta do pão!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O ensurdecedor som do silêncio


Estranhamente, quando acordei, naquela manhã até então comum, percebi que não conseguia mais falar. E percebi isso da forma mais trivial possível: após levantar-me da cama, enquanto me dirigia ao banheiro para as devidas abluções matinais, esbarrei naquele que é o pior inimigo das madrugadas, obstáculo que sempre se mete no meio do caminho. Não, não era uma pedra; e sim o criado-mudo. A canela foi tão fortemente danificada, que o sonoro grito de dor consequente pareceu que seria ouvido a quilômetros de distância.
No entanto, estranhamente, ele sequer saiu. O silêncio permaneceu o mesmo, ao mesmo tempo em que eu seguia minha marcha ao banheiro, ainda atordoado, na dúvida se o som havia sido abafado por mero capricho do acaso, fruto da minha imaginação, ou se, de fato, ele existira, mas não saíra.
Destino final atingido, abri o chuveiro. Às primeiras e frias gotas d’águas que me tocaram, imediatamente iniciei o assobio mental daquela que era a minha oração matinal: Geraldo Vandré. Todavia, ao chegar à parte cantada, já devidamente aquecida a água, tive a confirmação de que minha voz havia mesmo fugido de mim: não consegui sequer balbuciar o primeiro “caminhando”.
O boicote vocal, diversamente do que pode parecer, a um primeiro momento não me abalou muito. Na verdade, caiu como uma luva: era a desculpa ideal que eu buscava há tanto tempo. “Perfeito”, teria pensado com os meus botões se os houvesse naquela oportunidade – mas acabei pensando sozinho mesmo, despido de quaisquer pudores.
Continuei, então, meu dia como se nada houvesse acontecido, ainda mais aliviado pela desnecessidade de transformar uma insatisfação com o atual estado das coisas em atitudes concretas. Pra ser sincero, há tempos tinha dúvida se realmente estava indignado ou se já havia me resignado, entendendo que o mundo é assim mesmo e nunca mudará.
Agora, a dúvida era uma questão secundária, não importava tanto como outrora. Afinal, afônico, não havia como botar a boca no trombone e agir em prol de um mundo mais justo. Havia de deixar isso para os demais, enquanto eu deveria achar um jeito de me (re)encaixar neste mesmo mundo – e, principalmente, aceitar que a luta agora deveria ser uma bandeira dos demais e para todos.
“Sem voz, sem vez”. A desnecessidade de agir tornou meu dia muito mais leve, o que foi notado até mesmo pelos colegas de trabalho, que, obviamente, não se furtaram a fazer as piadinhas de praxe, odiadas e nem por isso menos fartamente repetidas em todo ambiente profissional.
“Como ele tá calado hoje!”, “Será que o gato comeu sua língua?”, “Ih, será que ele descobriu?”, “Foi bem alguma coisa ontem à noite... Ele saiu daqui tão alto astral!” eram algumas das manifestações daqueles anônimos conhecidos. Poucos permaneceram calados como eu – mas, diferentemente, para eles aquilo era uma opção, não uma imposição natural. Talvez mesmo eles não se importassem... Ao antever essa possibilidade, não me contive e deixei à mostra o meu sorriso de escárnio mais cruel e nunca previamente ensaiado, afastando ainda mais aqueles que porventura tivessem qualquer interesse na minha situação.
Passei a cumprir com minhas funções diligente, embora silenciosamente; quando parei de incomodar os colegas de trabalho ou quando encontraram outro alvo de chacota (confesso não saber o que veio primeiro), me deixaram em paz, abrindo caminho para a aproximação daqueles que representariam o começo do meu fim.
A verdade é que, naquele momento, eu estava feliz e havia aceitado facilmente o bloqueio vocal de que havia sido acometido. Não queria mudar aquela situação, desejava apenas curtir a minha vida e deixar os problemas de lado, alheios à minha realidade e ao meu cotidiano resignado.
Acontece que tentaram me convencer do contrário: quiseram me fazer ver que eu não deveria aceitar aquela situação, que eu não deveria jamais me calar e, principalmente, que eu não poderia, em hipótese alguma, me resignar. No começo, até cheguei a ignorar as investidas deles, mas, quanto mais eu me calava, mais eles tentavam. E me tentavam.
Meu silêncio nunca foi o bastante e, apesar de bem assimilado por mim, nunca foi compreendido pelos demais. Chegamos a tal ponto que tive que redigir um documento escrito destinado a eles, ilustrando situações, mostrando (falsas) razões e justificando meu silêncio nas leis da natureza.
O documento foi a gota d’água para transformar o que antes era uma mera tentativa de cooptação em ódio mortal. Não entendiam como alguém como eu podia ter perdido a voz da noite para o dia, passaram a me chamar de “traidor do movimento” e disseram que um dia eu pagaria por tudo aquilo. Como se a culpa fosse exclusivamente minha!
Tentaram me atingir violentamente de todas as formas, o que acabou sendo a última desculpa de que eu precisava para me recolher ainda mais. Encarcerei-me em mim mesmo e passei os últimos dias tentando achar a razão maior de tudo aquilo.
Quando, finalmente, achei tê-la encontrado, libertei-me de verdade e soltei um sonoro “aos diabos!”, junto com meu último suspiro.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Sábado à tarde

Segundo meu amigo, aconteceu numa tarde de sábado. Sim, porque nas tardes de sábado estamos de braços abertos pras infinitas possibilidades do final de semana, cantarolando e imaginando a trilha sonora animada, regada a petiscos e outras companhias, distraídos com a diversão futura (e sem pensar na ressaca consequente). É aí, então, que acontece.
Naquele sábado, diz meu amigo, o amigo dele estava se sentindo bem: era a sensação que só um céu azul ensolarado de uma tarde de sábado nos traz. Não havia nem mesmo resquícios de que algum dia já existiram nuvens no horizonte, o teto da cidade era todo de um azul sem igual, como se estivesse convidando para um banho de mar na Praia do Futuro. Na verdade, ele (meu amigo!) jura de pé junto que o amigo dele ouviu o sol chamando - disse inclusive qual seria a melhor barraca.
- Boooooorn to be wiiiiiild! - gritava a plenos pulmões, a janela do carro aberta, as paisagens e os outros carros ficando para trás - Get your motor running, head out on the highway. Lookin' for adventure in whatever comes our way! Uoooou, essa música deixa a gente realmente no clima.
Nada impediria a diversão daquele sábado à tarde. Já estava a caminho do sol, do mar, do encontro com os amigos e com a felicidade que a vida nos proporciona em momentos como aqueles, únicos - mas que se repetem de sete em sete dias, quando o céu permite.
Eis que (ah, as adversidades com que a vida nos brinda às vezes!) telefone tocou. Ele (o amigo do meu amigo) nunca gostou de atender telefonemas enquanto dirigia, mas naquele dia estava tão distraído, tão de bom humor, que resolveu dar uma chance àquele que resolveu se intrometer naquele momento de transbordante euforia. Na verdade, pensou mesmo que poderia contagiar um pobre necessitado de um simples lazer. Mas era apenas a sua mãe.
- Filho?
- Ahn... Oi, mãe.
- Que som é esse? Tá numa festa uma hora dessas?
- Quê?
- Abaixa esse volume!
- Peraí, mãe, que eu não tô ouvindo nada. Deixa eu abaixar aqui um pouco o som... Pronto, diga.
- Filho, você pode me fazer um favor?
Ah, o que seria das tardes de sábado sem os seus favores familiares?
- Agora?
- O mais cedo possível.
- Tá, diga.
- Você pode passar na casa da costureira, pra pegar uma encomenda pra mim?
- Posso, mãe - Que mais poderia falar? - Onde é?
- Filho, eu não sei onde é... Mas sei como chegar lá. Você faz o seguinte: vai pela rua da Lurdinha, sabe qual é?, vai nela até chegar na altura daquela churrascaria que eu ia com seu pai quando você e sua irmã eram mais novos, lembra?, chegando nela, dobra à direita, anda mais uns três quarteirões, ou são quatro?...
- Mãe...
- ... três ou quatro, não lembro, sei que você dobra à esquerda numa casa que sempre tem uma velhinha de cabelo branco na frente, acha que tá no interior, nem parece que tá tudo tão perigoso, então você passa uns três sinais...
- ... mãe...
- ... depois pega o primeiro retorno, cuidado nessa hora, tem muita batida, espera até dar certo passar...
- MÃE!
- Oi, filho?
- A senhora pode me dizer o telefone dela, que eu ligo e pego o endereço!
- Ah, tá. Anota aí: Adalgisa...
- O quê?
- Adalgisa! É o nome dela.
Depois, disse o telefone da costureira e desligou. O amigo do meu amigo não tinha onde anotar e ficou com aqueles dados na cabeça, utilizando uma tática de memorização que aprendeu quando era criança: "repetir a informação a cada cinco minutos, por três ou quatro vezes". Assim, nunca esquecera o telefone de ninguém.
Acontece que, naquele sábado à tarde, ele estava mais concentrado nas ondas do mar. E, ao abrir os olhos, ainda de manhã, botou na cabeça que nada o desviaria do seu foco: o azul do céu o dirigiria às dunas da Praia do Futuro. A solução seria, então, ir à praia e, no retorno para casa, passar na costureira. Para isso, não poderia esquecer nome nem telefone - sedimentos facilmente transportáveis pelas ondas do mar.
Ainda bem que utilizara eficazmente a técnica de memorização e conseguiu chegar à praia ainda se lembrando da Adalgisa e seu telefone. Mas, temendo o pior, mal cumprimentou seus amigos, pegou o primeiro pedaço de papel que viu na mesa e anotou as informações. Pronto, agora sim: poderia desfrutar aquele momento tão esperado desde o longínquo sábado anterior.
Uma certa altura, sol perto de se por, o arrebol estimulando os pensamentos dos corações apaixonados, as câmeras fotográficas apontadas para o horizonte, viu uma das meninas (Ísis? Bárbara?) de posse do guardanapo em que fizera as anotações. Felizmente, a mancha do excesso de batom retirado não foi suficiente para atrapalhar a leitura; parecia mais uma declaração de amor.
A turma foi das últimas a sair da praia naquele sábado à noite (sim, porque a tarde já se fora, juntamente com o sol). O amigo do meu amigo até carregou consigo o guardanapo, mas distraído, divertido, realizado, se esqueceu de passar na costureira. Seguiu direto para a casa da sua namorada, que, ao entrar no carro, até hoje não acredita que a "Adalgisa do beijinho" era só uma costureira.
Ela virou ex, e o amigo do meu amigo jura de pé junto que é tudo verdade.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Adeus


A Solleon Menezes.

Uma lágrima teima em querer cair silenciosa
Mas, mesmo sem parecer emitir qualquer som
Ela carrega em si um grito
Alto
Forte
Sufocado

A garganta apertada num nó que não desata
Luta contra um dilema existencial
Parafraseando Shakespeare
- Cair ou não cair? (eis a questão)
E nesse embate interno
Alia-se a mente à primeira opção

Fatos e fotos
Lambanças e lembranças
Detalhes e retalhos

De uma adolescência vivida
Platônicas paixões juvenis compartilhadas
Momentos e risos
Discussões e debates
Precoces e inteligentes

Vivíamos o presente
Imaginávamos o futuro
Mas infelizmente o ex-futuro
Agora presente
Tornou-se de súbito um ponto escuro

Ah, escuro, nêgo, meu amigo
Confesso, não consegui: a mente venceu
A solitária lágrima verteu
E o abafado grito saiu: adeus.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Orgulho cearense


Macho, tinha um povo, derdifarrétempo, que tinha uma cultura e uma história ricas que só, sabe? Estribada mesmo! Pra tu ter uma ideia, foi com esse povo que começou o fim da escravidão no Brasil - e viva o Dragão do Mar (Chico da Matilde) e a cidade de Redenção!
Tu já ouviu falar na Academia Brasileira de Letras? Macho, se eu te disser que a Academia de Letras desse lugar foi a primeira do Brasil, fundada três anos antes da ABL? Num acredita não? Então acho que nem vale a pena falar da Padaria Espiritual, né? Adolfo Caminha, Antônio Sales, Lívio Barreto... Pensa que são os endereços dessa tal Padaria? Macho, num é isso que tu tá pensando não! São escritores do mesmo lugar dessa cambada aí, igual um José de Alencar que veio antes deles.
Ah, e só pra continuar falando de escritores, tem também Patativa do Assaré e Rachel de Queiroz, contando aquilo que esse povo sofre tanto: a seca. Valeimeupadimciço! Domingos Olímpio e Clóvis Beviláqua, Barão de Studart e Franklin Távora...
E na televisão, então? Vixe! Tem o Renato "Didi Mocó Sonrisélpio Colesterol Novalgino Mufumbo" Aragão, o Chico Anysio (descansem em paz, Professor Raimundo e mais 200 personagens), o José Wilker e a Luiza Tomé, só pra num esticar muito esse parágrafo. Um brinde à cana brava, mas sem perder o Tom!
Como dever de casa, na hora da merenda tu vai ter que pesquisar sobre a vida dum caba que eu só vim conhecer um dia desses a história. Um caba que bebia cachaça do mesmo tanto que pintava: Chico da Silva. Macho, vai atrás, deixa de ser abestado; tu num vai se arrepender não. Ao contrário, tu vai é se orgulhar!
Orgulho... Taí! Tem como não ter orgulho dessa reca aí? Tem nada!
E olha que eu ainda não tinha falado nem do Falcão, Belchior, Fagner... E precisava? Não, né? 
Por tudo isso foi que inventaram de comemorar o dia do Ceará! E, pra cantar, chamaram quem? Adivinhou? Sim, ele mesmo:
O Alceu Valença!
Eita povo fresco! Cearense é comédia mesmo, tudo moleque. Vale nem um sibazol.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Chico da Matilde


Olhava desolado aquele amontoado de tijolos semipintados. Alguns deles conservavam as cores de outrora; outros pareciam haver desbotado há séculos, deixando incógnito a um turista o significado que tal monumento possuía há menos de uma década.
Ele, no entanto, era um nativo. Conhecia bem a importância daquela estrutura, menos pela sua imponência arquitetônica, mais pelo que traduzia e lembrava de suas recordações. E, ainda bem, era do tempo em que as lembranças iam bem mais além do que bits, bytes e emoticons - um tempo em que a realidade ousava ser bastante diferente do virtual.
Com as mãos entrelaçadas segurando os joelhos dobrados, espiando às vezes o horizonte, estava sentado naquilo que costumava ser grama, mas que agora, com muita bondade, podia ser no máximo uma terra com um matinho ralo. Não pôde deixar de sorrir, ainda que de canto de boca e involuntariamente, ao perceber o matinho ao seu redor. Via o cheiro de tempos passados, e ele se misturava com os amargos gostos daqueles tempos.
Gostos que antes traziam em si o sabor da descoberta, as ressacas e as dores de cabeça das paixões adolescentes, os problemas diminutos que se apresentavam gigantescos, as personalidades formadas e as amizades forjadas em copos de bar - algumas eternas, outras desfeitas tão logo esgotados os centavos que as mantinham.
Era, enfim, uma época em que sonhava utopia e realizava ideais. 
Entretanto, hoje em dia, não sabe o que mudou; não sabe o que, mudou. Não sabe como mudou; não sabe como, mudou. Não sabe quanto mudou; não sabe quanto, mudou. Não sabe quando mudou; não sabe quando, mudou. Só sabe que mudou. O mundo. Seu mundo. Ele.
Observava, então, os destroços que o rodeavam. Pedaços de história e fragmentos de memória se confundiam na sua mente, tentavam revelar aquele que talvez tenha sido no passado (ou que tenha tentado ser), trazendo um aperto no peito e ofegando cada vez mais a sua respiração.
A calma só foi restabelecida quando ouviu de um menino que se aproximou, vindo não sei de onde:
- Tio, passa a grana de bico fechado senão eu te furo.
Certas coisas, felizmente, nunca mudam.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Filosofia de boteco

"Dinheiro não é tudo, mas é 100%", disse (e repete) o filósofo pseudobrega - ou seria pseudofilósofo brega? - cearense Falcão, o cantor arquitetônico mais joiado de terras alencarinas. Não pretendo, aqui, reproduzir a letra da música; basta googlar e, voilà!, surgem milhares (ões?) de páginas eletrônicas com as suas lyrics. Quero, sim, discutir essa máxima, que é o máximo.
Não sejamos hipócritas: todos nós desejamos mais dele. Afinal, clichês à parte, é ele que move o mundo. A diferença, fundamental, é a destinação que cada um deseja dar a ele. E eu preciso dizer que não falo do Falcão?
Há aqueles para quem o dinheiro é tudo; deles, eu tenho pena. Sim, somente pena, já que este é o sentimento mais baixo que se pode ter por outrem. Baixeza de espírito com baixeza de tratamento se paga - opa, é perigoso falar em pagamento com essas pessoas; vai que elas desejam receber em dinheiro vivo...
Há, ainda, aqueles para os quais "money, get away!". Desses, eu rio. Como pretendem sustentar e dar asas aos seus sonhos mais loucos? Juro que não sei; e ouso completar: nem eles. Só sei que, um dia, eles mesmos olharão para trás e rirão de tudo.
Por isso que o deial mesmo é defender que o "dinheiro não é tudo, mas é 100%": é 100% quando se trata da sua sobrevivência e da dos outros; é 100% quando você se preocupa com os demais; é 100% quando ele financia a sua felicidade, a de quem o cerca e a de quem não o cerca - mas sem qualquer esbanjamento, desperdício nem luxo desmedido.
Mas, infelizmente, isso é o ideal - ou seja, está somente no plano das ideias. A realidade é diferente; e, nela, "money, que é good, nós num have".
* * *
Em tempo: busque as letras de músicas citadas ao longo do texto. Com algumas, você vai apenas se divertir; com outras, se deliciar. E não há riqueza mais prazerosa do que a proporcionada aos nossos ouvidos.

(Texto publicado na 7ª edição da Revista Preto no Branco)

A mão inglesa

Houve um tempo em que a mão inglesa, anomalia hoje em dia, era o usual. E, por mão inglesa, creio não ser necessário reforçar que falo da via de trânsito, e não do mero anglicismo - hand, sim, bastante conhecida e amplamente utilizada neste mundo globalizado.
Esse tempo era o da Idade Média, com seus feudos, trevas e cavaleiros (da Távola Redonda ou não), uma época em que ser canhoto era coisa extremamente pecaminosa. Aliás, gerações não tão antigas costumam dizer que, não faz muito tempo, as pessoas ainda acreditavam nisso. Isso implica dizer que recém saímos do Medievo?
Pois bem, por ser coisa do Cramunhão o simples fato de ser sestro, os cavaleiros se viam obrigados a segurar suas lanças destramente. Assim, nos combates, em que um partia de encontro ao outro, seria mais fácil atingir o adversário frontalmente se ele se encontrasse à sua direita.
Ocorre que, avançando um pouco no tempo, devemos nos lembrar de um certo baixinho. Não, não falo do Romário, o maior centroavante que já vi atuar dentro da grande área; falo de um proveniente de Córsega, fonte-mor de inspiração para muitos loucos no mundo inteiro. Um baixinho com mania de grandeza - como tantos outros. Um baixinho à parte. Napoleão Bonaparte.
Esse pequeno cidadão conquistou quase toda a Europa, comandando, com mão forte (e esquerda!), um grandioso exército. Sim, isso mesmo: fontes fidedignas (principalmente o Google) comprovam que Napoleão era canhoto. Dessa forma, empunhando suas lanças e espadas do lado do coração, o imperador inverteu a via de circulação em todos os lugares que conquistou.
Mas (ah, que seria das histórias se não houvesse a conjunção adversativa!) eu já disse que Bonaparte não conseguiu conquistar a integralidade do mundo "civilizado" - alguém pode me esclarecer que conceito de civilização é esse, já que os Estados viviam guerreando por nada? E, forte e resistente, voilà!, a Inglaterra.
Orgulhosa de si, então, manteve, além do seu sistema de pesos e medidas, a sua via de circulação - a mão inglesa.
Sinistro!

(Texto publicado na coluna "É o seguinte", do site Circunlóquio - http://www.circunloquio.com.br)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

De repente


...

E de repente...

E de repente
Da cama fez-se a creche
E de bebê
Passou à criança
Tempo de descobertas
Tempo de brincadeiras
Lápis de cor e balas
Parques e palmeiras

E de repente
Da criança fez-se a moça
Agora na flor da idade
Que traz novas descobertas
Junto com a responsabilidade
De se crescer consciente
Que no mundo também há maldade

E de repente
Da moça fez-se a mulher
A vida se abriu em oportunidades
Mostrou o caminho a ser seguido
Tomou o rumo da felicidade

E de repente
Da mulher fez-se a mãe
Transcorrida uma geração
Repete-se a história
O mesmo filme na memória
A memória do coração

E de repente
Da mãe fez-se a avó
Transcorrida uma geração
Repete-se a história
O mesmo filme na memória
A memória do coração

E de repente...

...